O jornal The New York Times entrou com uma ação judicial contra a dona do navegador e buscador Brave, acusando a empresa de copiar reportagens protegidas e transformá-las em insumo para inteligência artificial. O processo, protocolado na última segunda-feira (02/11), também aponta irregularidades em funções de bloqueio de anúncios que driblam barreiras de pagamento.
Acervo gigante e uso em inteligência artificial
De acordo com os documentos apresentados, a companhia mantém um banco de dados com mais de 30 bilhões de páginas da web, incorporando milhões de novos endereços todos os dias. Esse volume massivo inclui reportagens do veículo norte-americano obtidas sem consentimento.
A acusação detalha que a desenvolvedora oculta publicamente o robô utilizado para realizar a varredura, impedindo que os editores bloqueiem o rastreador. O material capturado alimenta ferramentas como o Ask Brave, assistente de inteligência artificial que responde a questionamentos diretamente na interface, diminuindo as visitas diretas ao site original. Outros periódicos, a exemplo do New York Daily News, Chicago Tribune e Orlando Sentinel, movem ações parecidas em instâncias separadas.
Comercialização de informações por meio de API
O processo aponta que a Brave monetiza o índice construído com essas capturas ao disponibilizar o acesso através da Brave Search API. Esse serviço entrega dados da web a terceiros, incluindo empresas de tecnologia voltadas a modelos generativos.
A lista de clientes apontados no documento envolve nomes de peso como Anthropic, Perplexity, Mistral, xAI e Cohere. Um dos recursos comercializados por essa via é o LLM Context, desenvolvido para alimentar sistemas de linguagem com trechos de texto e tabelas extraídos da internet.
Vale lembrar que o veículo de imprensa já adota uma postura firme contra o uso não autorizado de seu material por companhias de tecnologia, aguardando o desfecho de um litígio movido contra a OpenAI e a Microsoft desde 2023.
Conflito sobre bloqueadores de conteúdo e assinaturas
Reconhecido mundialmente pelo foco na privacidade digital, o navegador também entrou na mira devido aos seus mecanismos de filtragem. O jornal alega que tais funções prejudicam diretamente a sustentabilidade financeira ao bloquear anúncios e assinaturas.
A petição destaca o uso de complementos como o Paywall Blocker, capaz de burlar o acesso restrito a assinantes. A publicação argumenta que, sem recursos para financiar o jornalismo, “haverá um vácuo na produção de notícias que nenhum computador ou inteligência artificial será capaz de preencher”, e sustenta que a empresa de tecnologia lucra em cima do conteúdo alheio enquanto drena a renda do criador.
Tentativas de acordo frustradas
Antes de formalizar a disputa judicial, o periódico tentou resolver o impasse de forma amigável. A instituição relata o envio de duas notificações extrajudiciais à ré nos anos de 2025 e 2026, ambas ignoradas pela companhia de tecnologia, o que motivou o recurso à justiça.
O porta-voz do jornal, Graham James, afirmou que o veículo apoia o desenvolvimento responsável de inteligência artificial, mas acusa a Brave de ignorar a legislação de direitos autorais e os pedidos anteriores para interromper a prática.
Em contrapartida, a Perplexity, citada na ação como compradora dos dados raspados pela Brave, rebateu as acusações e declarou que o New York Times estaria “gastando demais com advogados e pouco com jornalistas”.








