O mês de outubro transforma a capital do Pará com a realização do tradicional Círio de Nazaré, evento que atrai fiéis, turistas e curiosos em busca de união, esperança e amor ao próximo. Reconhecida oficialmente como patrimônio cultural da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a festividade ultrapassa os limites religiosos e celebra a identidade amazônica.
Origem histórica e devoção popular
Com mais de dois séculos de trajetória, a celebração teve início com a história do caboclo Plácido. No século 18, ele encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora às margens do Igarapé Murutucu e a levou para casa. No entanto, o objeto sagrado desapareceu e reapareceu exatamente no local primitivo, área que hoje abriga os fundos da Basílica Santuário Nossa Senhora de Nazaré, ponto final da procissão.
O fenômeno se repetiu mesmo quando a imagem foi transferida para outros pontos, consolidando a crença de que a santa desejava permanecer no igarapé. Diante disso, o local recebeu a construção de uma ermida, dando início à devoção que se expandiu ao longo das gerações.
Identidade cultural e laços regionais
O historiador Márcio Neco destaca que é possível perceber inúmeros elementos da identidade paraense e amazônica no Círio:
“A culinária, o artesanato nos brinquedos de miriti, as festas que fazem parte do calendário cultural da cidade no período do Círio, expressões, vocabulários, a maneira como as pessoas se tratam e acolhem umas às outras e a religiosidade.”
A transmissão intergeracional da fé também marca a festividade, conforme relata a universitária e devota Stephany Beatriz:
“A minha relação com a Nossa Senhora de Nazaré começou através da minha família muito tempo atrás, desde quando eu era bem bebezinha, e foi crescendo ao longo da minha vida. Com o passar dos anos, essa devoção se tornou cada vez mais forte e hoje Nossa Senhora faz parte da minha história, da minha família e das minhas orações. Para mim, o Círio é um momento de fé, esperança e, principalmente, de gratidão por tudo aquilo que Deus e Nossa Senhora têm feito por nós.”
Programação e grandiosidade do evento
Sob o tema “Maria, Mãe Missionária que nos dá Jesus”, a edição de 2026 conta com uma agenda de 14 romarias realizadas entre os dias 7 e 26 de outubro. A procissão principal teve início nas primeiras horas do dia, após missa celebrada na Catedral Metropolitana de Belém.
O trajeto de 3,6 quilômetros possui duração estimada em seis horas até a chegada à Basílica Santuário, com expectativa de reunir 2,3 milhões de participantes. Para garantir a segurança e o fluxo adequado, a infraestrutura do evento dispõe de bloqueios viários, ordenamento dos devotos e instalação de postos de atendimento da Defesa Civil e da Cruz Vermelha ao longo do caminho.







