Uma imersão contundente sobre as cicatrizes deixadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados desembarca na capital paulista. A monumental instalação O Barco, criada pela prestigiada artista interdisciplinar portuguesa Grada Kilomba, entra em cartaz no Espaço Galpão do Sesc Pompeia. A visitação pública é gratuita e fica disponível até o dia 25 de outubro.
Arquitetura da memória nos porões da história
Classificado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas como o delito mais perverso cometido contra a humanidade, o comércio escravagista sequestrou e vendeu milhões de africanos como bens mercantis ao longo de quatro séculos. Esse sistema violento teve o território brasileiro como seu principal destino, recebendo mais de 4,8 milhões de pessoas forçadas a cruzar o oceano em navios negreiros.
Para materializar essa tragédia e confrontar narrativas eurocêntricas, a artista estruturou 134 blocos de madeira queimada distribuídos por uma área de 220 metros quadrados, estendendo-se por 32 metros de comprimento. A disposição das peças recria a silhueta da base de uma embarcação e expõe a geometria claustrofóbica imposta aos corpos nos porões.
“O Barco vem mostrar aquilo que estava no fundo de muitos barcos que aparecem nos monumentos da Europa e da América Latina e que glorificam uma história, que contam a história com glória, como um descobrimento, como uma expansão e como algo romântico e glorioso. Como artista, me interessa muito questionar o que é essa glória e o que esses barcos gloriosos traziam no fundo”, pontuou Grada Kilomba.
A criadora propõe ainda um exercício de imaginação: “Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”.
Inspiração mitológica e ecos contemporâneos
O conceito por trás da montagem articula pesquisas históricas, botânicas e a tragédia clássica de Antígona — em referência direta ao conflito entre os irmãos Etéocles e Polinices e à negação de ritos funerários a um deles.
“Esta obra [O Barco] também vem em sequência dessa obra Antígona, que questiona quem é que pode ser enterrado e quem não, quem é que pode ser lembrado e tem um lugar para ser chorado e para ser celebrado e quem não”, explicou a artista. “Não é por acaso que as histórias são esquecidas e proibidas de serem recordadas, de serem ritualizadas e lembradas porque isso produz memória”.
Kilomba também enxerga as águas oceânicas como cemitério de dramas atuais, marcados por conflitos e migrações contemporâneas.
“Este barco leva também não só ao passado. Múltiplos barcos atualmente continuam a atravessar as águas globais para fugir a genocídios, massacres, crises climáticas, migrações forçadas, guerras e conflitos. E os mesmos corpos caem no fundo do mar”, ressaltou.
Adaptação no espaço e poesia multilíngue
Em razão da escala agigantada do trabalho, a disposição precisou ser reorganizada para o galpão paulistano, criando uma camada adicional de significado sobre ausência e fragmentação.
“É muito interessante começar a trabalhar nessa narrativa de que os barcos atracavam em diferentes portos e não chegavam inteiros, não chegavam com toda a sua população, assim como os barcos hoje saem de um lugar para um outro e não chegam inteiros. Essa reflexão também é muito importante: parte desta obra torna-se invisível aqui no espaço porque ela é muito maior do que ele”.
No núcleo do arranjo, 18 blocos contam com inscrições douradas contendo estrofes autorais. O poema foi traduzido para idiomas como iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe sírio. “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”, destacam os escritos.
“Esta obra é o inconsciente da nossa história. Nós temos uma história que entrou no projeto europeu de escravatura durante mais de 400 anos e que foi completamente apagada. Está invisível na nossa realidade, não é documentada, nem estudada. E a mim, como artista, interessa muito trabalhar esse invisível e com esse inconsciente sobre o que está apagado no imaginário coletivo”, afirmou Kilomba.
A criadora complementa alertando sobre a necessidade da preservação da memória: “Quando a história não é contada devidamente, a sua barbárie repete-se”.
Trajetória da mostra
Antes de chegar a São Paulo, O Barco passou por Lisboa e Londres. No Brasil, o projeto teve estreia no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, onde permaneceu por 28 meses.
“É muito bonito pensar numa itinerância pelo Brasil, que é o que nós estamos a fazer agora, entrando em diferentes espaços arquitetônicos e em diferentes lugares e cidades”, celebrou a autora.
Idealizada pelo Instituto Inhotim, a exibição no Sesc Pompeia é enriquecida por outros dois projetos concebidos por Kilomba: a videoinstalação Opera to a Black Venus e o trabalho Compressed Time.








