A cidade interiorana de Bom Jesus dos Perdões, situada a cerca de 65 quilômetros da capital paulista, passou por uma verdadeira transformação em sua cena cultural graças à chegada de um empreendimento literário. Com uma população estimada em 22 mil moradores, o município não contava com nenhum estabelecimento do tipo até o ano de 2016.
O surgimento da casa do leitor
A iniciativa partiu de Guilherme Moura e Fernanda Miquelino, ambos psicólogos. Ele é natural da cidade, enquanto ela se mudou de Atibaia após o casamento. O casal frequentemente ouvia de conhecidos que os residentes não demonstravam interesse por manifestações artísticas, o que servia de justificativa para a inércia do Poder Público em relação ao setor.
Inconformados com essa narrativa, os fundadores decidiram agir. “Comecei de maneira virtual. Vendia livros para pagar a faculdade de psicologia. Me formei, segui no ramo, a venda foi crescendo. Tínhamos apenas um estoque, numa garagem”, conta Guilherme.
Com a expansão dos negócios e o espaço livre na parte superior do armazém, surgiu a oportunidade de abrir as portas ao público. O objetivo principal deixou de ser apenas a comercialização de obras para se transformar na criação de um polo de debates e convivência.
“Fizemos a inauguração com a vinda do professor Christian Dunker. Foi um sucesso. A partir disso percebemos que havia um interesse na região por atividades assim e seguimos fazendo com frequência”, acrescenta o cofundador.
Programação diversificada e impacto na educação
Desde a abertura, o local já recebeu feiras de vinil, exibições de filmes, lançamentos literários e rodas de conversa voltadas para o público idoso e para mulheres. Autores renomados como Marcelo Rubens Paiva, Juca Kfouri, Aline Bei, padre Júlio Lancellotti, Jessé de Souza, Pedro Bandeira e José Roberto Torero já passaram pelo endereço.
O reflexo dessa movimentação alcança também as salas de aula. Conforme dados da Secretaria Municipal de Educação, liderada pelo professor Ricardo Augusto Pontes Moraes, a iniciativa contemplou 240 estudantes do 5º ano pertencentes a cinco instituições de ensino da rede pública.
“Depois da participação, os alunos relataram mais facilidade para compreender as histórias, em razão do mecanismo utilizado para trabalhar a leitura com eles. As escolas também nos relataram a importância do espaço da leitura e do acesso que a Casa do Leitor proporciona a alunos e professores”, explica o secretário municipal da Educação.
Aprovação dos frequentadores
Entre os frequentadores assíduos está a doutora em psicologia da educação Magda Machado Ribeiro Venancio, moradora do município há mais de três décadas.
“A Casa do Leitor trouxe novos ares para Perdões e tornou a cidade mais conhecida e atrativa para os que moram nas cidades próximas”, diz.
Ela complementa: “Acompanho com muita satisfação a Casa do Leitor desde seu início e admiro não apenas a iniciativa, mas também a programação e a persistência de Guilherme e Fernanda. Para mim, além de ampliar minha visão e perspectiva, gosto da pluralidade e da diversidade que o espaço propicia”.
O apelo do espaço ultrapassa os limites municipais. O jornalista Mario Casimiro Gonçalves, de 31 anos, desloca-se frequentemente de Atibaia para prestigiar a agenda local. “Acho muito importante ter um espaço como esse, ainda mais em uma cidade que estava precisando urgentemente de um local cultural. Eu vejo a Casa do Leitor como um local de diversão, resistência, onde são realizados encontros e há circulação de ideias”, comemora.
Desafios para o futuro
Apesar da agenda preenchida até o mês de novembro, o projeto ainda lida com barreiras estruturais e financeiras para manter sua sustentabilidade a longo prazo.
“Nossa dificuldade hoje é engajar a administração pública e fazer com que cada vez mais pessoas conheçam o espaço. A equipe é pequena, nos faltam recursos, mas sinto que fazemos muito dentro daquilo que nossas possibilidades atuais permitem”, conclui Guilherme Moura.








