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Escritor Joaquim Arena resgata a Europa negra invisível em livro

Autor luso-cabo-verdiano debate herança colonial e literatura em evento gratuito no CCBB do Rio de Janeiro nesta quarta-feira.

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Escritor Joaquim Arena preenche vazios de Europa negra invisibilizada

O autor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena dedica-se a expor uma Europa negra que foi apagada das narrativas oficiais. Utilizando a obra Debaixo da nossa pele, lançada em 2017, ele revisita a presença histórica de africanos e de seus descendentes no continente europeu por meio de pesquisas em arquivos, relatos e viagens por Portugal.

Trajetória e passagem pelo Rio de Janeiro

Nascido na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, no ano de 1964, Arena é filho de pai português e mãe cabo-verdiana. Ele passou grande parte da vida em Lisboa, onde concluiu sua formação em direito e deu os primeiros passos na carreira jornalística. Atualmente, o romancista mora na cidade de Praia, em Cabo Verde, após acumular seis romances traduzidos para vários idiomas e vencer o Prémio Oceanos em 2023 na categoria Prosa com o livro Siríaco e Mister Charles.

O autor está na capital fluminense para marcar presença no Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). O evento acontece no centro do Rio de Janeiro, às 17h30.

Conexões entre Cabo Verde, Brasil e Europa

Debate-se o tema “Romance histórico: onde a realidade encontra a ficção” no encontro com entrada gratuita. A proposta é conversar sobre memória, pertencimento, identidade e as marcas coloniais que persistem no presente. A partir da produção de Arena, a iniciativa busca aproximar as vivências históricas e culturais de cabo-verdianos e brasileiros, nações ligadas por deslocamentos populacionais e relações históricas.

O escritor relata que sua obra trata da miscigenação e da circulação dos povos da África rumo à Europa, permitindo que o público identifique paralelos com a formação do Brasil.

“Debaixo da nossa pele fala dessa condição humana de deslocamento das pessoas de um país a outro, levadas por questões econômicas, sociais e políticas. O livro faz essa síntese, pois a circulação continua ainda hoje, é positiva, abre oportunidades de novas janelas de vida para muitas pessoas”, diz Arena.

Preenchendo lacunas na história por meio da ficção

Para o romancista, o passado exerce um fascínio maior do que o momento atual. Ele explica que busca fatos históricos para neles encontrar lacunas que possam ser preenchidas pela literatura.

“Sou levado a encontrar, no meio dos fatos históricos, os vazios. São esses vazios que eu pretendo preencher através da minha ficção. Aproveito episódios verídicos que são muito inspiradores para que nós imaginemos uma personagem. Fico com vontade de saber mais, senão eu invento a personagem”, afirma o autor.

A influência da literatura brasileira

A relação de Arena com os livros do Brasil começou na infância, aos 12 anos, por meio de Jorge Amado. Ele também se conectou com a obra Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, que marcou sua formação como porta de entrada para uma cultura literária distinta da europeia e da africana.

“Nós, das antigas colônias portuguesas, recebemos a literatura brasileira como uma janela para um mundo muito semelhante ao nosso”.

“Jorge Amado, com sua Bahia, está na formação de muitos autores lusófonos na África. Depois, vamos crescendo e encontrando Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos. O romance da década de 30 fala dos retirantes, da seca. É uma realidade muito próxima da nossa”, diz Arena.

Por fim, o escritor ressalta o valor dos clubes de leitura na contemporaneidade, definindo-os como espaços onde a magia da invenção literária ainda resiste.

“Há um pacto do autor com o público. O escritor sabe que o que ele inventou não existiu. O leitor sabe que o romance saiu da imaginação. Isso cada vez mais num mundo acelerado, com redes sociais, com streamings”.

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