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Queda drástica no nascimento de filhotes marca o fim da temporada de baleias-jubarte no Brasil

Especialistas apontam o aquecimento global e a escassez de krill na Antártida como os principais fatores para a baixa reprodutiva.

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Temporada das baleias-jubarte termina com menos filhotes

A temporada anual das baleias-jubarte no litoral brasileiro chegou ao fim com um cenário preocupante: o registro de uma quantidade muito baixa de novos filhotes. O fenômeno acende o alerta entre os cientistas, que monitoram a principal área de reprodução da espécie no país, localizada no arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia.

Impacto do aquecimento global na reprodução

Historicamente conhecidas por realizar uma longa jornada de quase 4 mil quilômetros desde a Antártida, as jubartes utilizam as águas brasileiras para acasalar e dar à luz. No entanto, dados do Instituto Baleia Jubarte mostram que, até o mês de setembro, os filhotes representaram apenas 3,35% das baleias avistadas. O índice fica muito distante da média histórica de 9,98% registrada desde 2014 e dos 16,69% contabilizados em 2024.

O diretor de pesquisas do instituto, Milton Marcondes, esclarece que as alterações no clima global influenciam diretamente a quantidade de krill — pequenos crustáceos que servem de alimento quase exclusivo para esses animais — nas regiões polares.

“Baleias que não se alimentam direito, quando vêm acasalar, não têm tanta fertilidade, ou a fêmea em gestação corre o risco de perder o filhote”, acrescenta Marcondes.

Como os mamíferos marinhos não costumam se alimentar durante o trajeto migratório, a reserva de gordura acumulada antes de partir é essencial, sobretudo para as fêmeas gestantes e lactantes.

Métodos de monitoramento e alcance global

Para consolidar as estatísticas anuais, os pesquisadores combinam o acompanhamento diário a bordo de uma embarcação de carga entre Belmonte (BA) e Barra do Riacho (ES), além de cruzeiros científicos em Abrolhos e sobrevoos de mapeamento populacional. As flutuações, segundo o especialista, também foram observadas no exterior.

“Não aconteceu só no Brasil. Aconteceu também com as jubartes do Pacífico, que frequentam a costa do Equador, e aconteceu com as jubartes da costa oeste e da costa leste da Austrália…”, contextualiza.

Temporada mais curta e mudança nos encalhes

Devido à baixa natalidade, o fluxo migratório se encerrou antes do previsto. A permanência prolongada das baleias no país costuma ocorrer justamente por causa dos filhotes, que precisam ganhar força e massa gorda para suportar o frio antártico.

“As baleias que vieram acasalar, acasalaram e foram embora. Quem segura a temporada até mais tarde são os filhotes, porque a mãe tem que esperar ele crescer, desenvolver a musculatura e uma camada de gordura que permita a ele fazer a migração até as áreas de alimentação e proteja do frio da água de lá [Antártida]. Com menos filhotes, a temporada é mais curta”, explica Milton Marcondes.

Outro reflexo incomum foi observado nos registros de mortalidade. Enquanto os filhotes representam o grupo mais frágil e vulnerável a encalhes, a escassez de recém-nascidos colocou os animais juvenis em evidência nas estatísticas.

“Em um ano ruim, um adulto pode saber onde buscar comida, como capturá-la e ter ainda uma reserva de gordura. Os juvenis têm menor capacidade de estocar gordura e também são menos experientes.”

Essa alteração demográfica mudou a geografia dos encalhes. Como os jovens costumam interromper a viagem migratória mais ao sul, estados como São Paulo e Santa Catarina registraram mais ocorrências do que a Bahia e o Espírito Santo. No total, foram contabilizados 59 casos em 2024, contra 78 no ano anterior.

Apesar de os números atuais estarem relativamente controlados, o instituto segue vigilante quanto aos impactos cumulativos da falta de alimento.

“Este ano, nós não tivemos pico de encalhe. Pelo contrário, os números são relativamente baixos. Mais nós estamos tendo mais casos envolvendo juvenis no Sul. Se continuar o problema com disponibilidade de krill, pode ser que no ano que vem a gente tenha uma mortalidade atípica, porque geralmente é cumulativo”, alerta Marcondes.

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