Um comprimido diário conseguiu manter o câncer de pulmão avançado sob controle por sete anos em mais da metade dos pacientes participantes de um estudo clínico. O avanço inédito foi alcançado com o lorlatinibe, um fármaco projetado para combater tumores com uma mutação genética específica.
Divulgada em setembro de 2026 na revista científica Annals of Oncology, a pesquisa representa a atualização de sete anos do ensaio clínico de fase 3 CROWN. Os dados indicam que 55% das pessoas tratadas com a substância continuaram vivas e sem avanço da enfermidade após esse intervalo.
O trabalho acompanhou 296 indivíduos diagnosticados com câncer de pulmão de não pequenas células em estágio avançado e positivo para a alteração no gene ALK. Do total, 149 voluntários receberam o lorlatinibe, enquanto 147 foram medicados com o crizotinibe, terapia tradicional para esse perfil tumoral.
Entre os que utilizaram o tratamento mais recente, a mediana de sobrevida livre de progressão não havia sido atingida após o período de monitoramento. Em contrapartida, no grupo que recebeu crizotinibe, o índice ficou em apenas 9,1 meses, com uma probabilidade de 3% de permanecer vivo e sem progressão ao fim de sete anos.
Os autores do levantamento também constataram uma retração de 81% na probabilidade de avanço do tumor ou óbito entre os pacientes medicados com lorlatinibe, na comparação com o grupo de controle.
Como age a terapia-alvo no organismo
O medicamento funciona como uma terapia-alvo, categoria criada para neutralizar alterações genéticas que estimulam a proliferação celular indesejada. No caso em questão, o problema decorre de um rearranjo no gene ALK, presente em 3% a 5% dos diagnósticos de câncer de pulmão de não pequenas células, gerando sinais contínuos de multiplicação para as células.
O lorlatinibe atua diretamente ao bloquear essa proteína anômala. Além disso, o composto possui a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura protetora que circunda o cérebro e costuma impedir a passagem de diversas substâncias terapêuticas.
Essa característica se mostra essencial para combater metástases cerebrais, comuns em estágios avançados da enfermidade, e barrar mecanismos de resistência. No estudo CROWN, nenhum novo caso de progressão intracraniana foi reportado após os primeiros trinta meses de uso contínuo.
Entre os participantes que completaram os dois primeiros anos sem agravamento do quadro, a chance estimada de continuarem vivos e estáveis no sétimo ano alcançou 79%.
Evolução histórica e segurança do tratamento
Comparado às abordagens de gerações passadas, o cenário atual demonstra uma mudança expressiva. Durante décadas, a quimioterapia representava a principal alternativa para os casos avançados, período em que nenhum paciente ultrapassava cinco anos sem a progressão do tumor.
O oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, comentou a evolução tecnológica: “Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%. O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente”.
O colega Stephen Stefani também enfatizou a relevância do monitoramento estendido. “A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente”, avaliou.
Matheus Henrique Dias, pesquisador na Holanda, reforçou o otimismo. “Para quem tem essa mutação específica, vai ser de fato uma mudança grande”, afirmou.
Contudo, os especialistas lembram que os dados de sobrevida global ainda carecem de maturação, pois o estudo não acumulou óbitos suficientes para fechar essa métrica definitiva. Logo, o resultado aponta controle estendido, mas não assegura a cura.
No tocante à segurança, 77% dos pacientes tratados com lorlatinibe experimentaram eventos adversos de grau 3 ou 4 na atualização de sete anos, embora nem todos tenham relação direta com o fármaco. O ajuste de dosagem ocorreu em 34% dos casos, sem prejuízo à eficácia de longo prazo.
Reações no sistema nervoso central também aparecem em cerca de 52% dos relatos na literatura clínica, englobando alterações de humor, distúrbios do sono e questões cognitivas. Matheus Henrique Dias ponderou sobre o equilíbrio necessário: “A gente vê que ainda há alguns pontos que precisam ser considerados. É importante que os pacientes vivam, mas é muito importante que eles continuem sendo, em boa medida, eles mesmos”.
Desafios de acesso e custos no Brasil
O acesso ao lorlatinibe no território brasileiro esbarra em barreiras financeiras e estruturais. O diagnóstico requer exames moleculares específicos para identificar a mutação ALK, testes nem sempre disponíveis na rede pública ou na saúde suplementar.
Gustavo Schvartsman resumiu o impasse: “Não adianta fazer o teste num sistema em que o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto”.
O preço comercial intensifica a dificuldade, uma vez que a caixa com 30 comprimidos pode atingir cerca de R$ 37 mil. Em um tratamento contínuo de sete anos, o montante ultrapassaria R$ 3,1 milhões por pessoa.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS avaliou a inclusão do medicamento, mas o Ministério da Saúde publicou em maio de 2025 uma decisão contrária à sua distribuição na primeira linha de tratamento pelo Sistema Único de Saúde, citando critérios de custo-efetividade.
Atualmente, pacientes dependem de planos de saúde regulados pela ANS — onde o remédio possui cobertura obrigatória para indicações previstas —, recursos próprios ou ações judiciais.
Apesar dos obstáculos, o tratamento devolve expectativas a quem enfrenta o diagnóstico, a exemplo da brasileira Paula Piteri, que descobriu um nódulo pulmonar em 2020 e voltou a lidar com a enfermidade em 2025: “Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente”, relatou. Utilizando o medicamento via convênio médico, ela resume o sentimento atual: “É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda”.








