Uma paciente de 41 anos passou a enfrentar episódios convulsivos que aconteciam exclusivamente durante o período da menstruação. Após anos de investigações médicas, especialistas levantaram a suspeita de endometriose no cérebro depois que exames de imagem apontaram uma lesão no hipocampo, área responsável pela memória.
H2 Histórico das crises e diário menstrual
Os primeiros episódios surgiram em fevereiro de 2019, quando a mulher perdia parcial ou totalmente a consciência, ficava com o olhar parado e apresentava confusão mental e falhas de memória após as convulsões. Ela não relatava cólicas intensas ou dor pélvica cíclica, sintomas comuns da endometriose.
Seis meses depois, ela começou a registrar as datas das crises e do sangramento. O diário indicou que o problema ocorria unicamente durante a menstruação. Uma ressonância magnética de agosto de 2019 apontou uma alteração no hipocampo direito, mas tumores, infecções e malformações foram descartados, e remédios antiepilépticos não controlaram as crises.
H2 Tratamento hormonal e desaparecimento da lesão
Em 2020, novos exames revelaram um nódulo de aproximadamente um centímetro, sugerindo sangramento antigo, o que direcionou a suspeita para a endometriose. A partir de 2021, a paciente usou dienogeste e desogestrel, hormônios indicados para a condição.
As convulsões pararam e os antiepilépticos foram suspensos três meses depois. Em março de 2026, uma nova ressonância já não mostrava a lesão. O tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025 sem retorno das crises.
H2 Relação com o ciclo e visão médica
A epilepsia catamenial concentra crises em fases do ciclo menstrual e afeta de um terço a metade das mulheres em idade fértil com epilepsia. O estrogênio aumenta a excitabilidade dos neurônios, enquanto a progesterona inibe a atividade cerebral, fazendo com que a queda desse hormônio perto da menstruação favoreça crises. No entanto, isso não confirma a endometriose, doença caracterizada pelo crescimento de tecido uterino fora da cavidade.
A endometriose cerebral é extremamente rara. “A endometriose deixou de ser considerada exclusivamente pélvica e passou a ser compreendida como uma condição crônica, inflamatória e sistêmica”, pontua o ginecologista Marcos Tcherniakovsky, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose.
O cirurgião Gustavo Leme ressalta que o ponto escuro na ressonância de 2020 “poderia indicar a presença de ferro deixado por um sangramento antigo”, embora o sinal não seja exclusivo da doença. Sem biópsia devido ao risco, a causa exata permanece sem confirmação definitiva.







