No Dia da Amazônia, celebrado neste sábado (5), especialistas ressaltam a necessidade urgente de investir na recuperação de terras degradadas em áreas indígenas, destacando que a restauração vai além do simples plantio de árvores. Essa ação é crucial para a proteção de nascentes, aumento da segurança alimentar, recuperação de espécies tradicionais e geração de renda nas comunidades.
A importância da restauração em terras indígenas
A restauração de áreas degradadas tem um papel vital na preservação dos ecossistemas e na promoção da segurança alimentar. Em contextos indígenas, essa recuperação pode revitalizar conhecimentos tradicionais e trazer de volta espécies vegetais essenciais para a subsistência das comunidades. Além disso, a restauração de terras pode fortalecer a autonomia e a gestão territorial dos povos indígenas.
Metas de recuperação e desafios atuais
A discussão sobre a restauração de terras indígenas é especialmente relevante, uma vez que o Brasil anunciou metas ambiciosas para recuperar mais de 163 mil quilômetros quadrados de áreas degradadas até 2030, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação, realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia. As terras indígenas, que atualmente enfrentam 952,3 mil hectares de degradação, são essenciais para esse esforço.
Dados recentes indicam que 840,5 mil hectares de vegetação secundária também estão presentes nessas áreas, o que representa um potencial de restauração de cerca de 1,79 milhão de hectares. Apesar dos desafios, os territórios indígenas permanecem entre os mais conservados do Brasil, com apenas 1,7% da perda de vegetação nativa ocorrendo nessas regiões entre 2019 e 2025.
Visão indígena sobre restauração
Diana Nascimento, líder do povo Kaingang e especialista da The Nature Conservancy Brasil (TNC), enfatiza que a participação ativa dos povos indígenas na restauração é fundamental. Para ela, o conceito de restauração deve ser ampliado para incluir aspectos culturais e sociais. “Quando os povos indígenas lideram a restauração, o território é visto como uma extensão de suas vidas, envolvendo cultura, alimentação e tradições”, afirma.
Planejamento e priorização das áreas de restauração
A identificação das áreas prioritárias para restauração é uma tarefa complexa, considerando a vastidão dos territórios e a limitação de recursos. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desenvolveu um sistema integrado de informações para auxiliar na tomada de decisões sobre conservação e restauração. Esse sistema considera fatores como degradação, segurança hídrica e biodiversidade, permitindo um planejamento mais eficaz.
Guillermo Florez Montero, da TNC Brasil, explica que essa ferramenta pode ajudar a priorizar áreas para projetos de restauração de acordo com critérios específicos, como insegurança hídrica, sem desconsiderar a vontade das comunidades locais.
Recuperação de saberes tradicionais
Os povos indígenas possuem um vasto conhecimento sobre o manejo de sementes e plantas nativas, o que é fundamental para a restauração de alimentos e práticas culturais. Diana ressalta que as mulheres indígenas desempenham um papel crucial nesse processo, sendo responsáveis pela conservação de sementes e pela transmissão de saberes.
“Reconhecer e valorizar esses conhecimentos é essencial para fortalecer a segurança alimentar e a biodiversidade”, argumenta. Assim, a restauração torna-se um processo que não apenas revitaliza a vegetação, mas também resgata saberes tradicionais.
Prevenção de impactos e fortalecimento comunitário
A restauração deve ser acompanhada de ações preventivas contra novos impactos, como mineração e expansão de pastagens. O sistema da Funai considera diversos critérios, incluindo a saúde das comunidades e a vulnerabilidade às mudanças climáticas, para garantir que as ações sejam efetivas e sustentáveis.
Diana conclui que fortalecer a governança das comunidades é um passo fundamental para a conservação dos recursos naturais e para enfrentar as pressões externas. “Comunidades resilientes têm maior capacidade de proteger seus territórios e de se adaptar aos desafios impostos pelas mudanças climáticas”, afirma.








