O racismo e as disparidades socioeconômicas comprometem o potencial de aprendizagem infantil desde os primeiros anos de vida, conforme aponta uma pesquisa inédita realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. O levantamento revela que, aos 5 anos de idade, já é possível notar discrepâncias expressivas no desempenho escolar dos alunos, com variações diretamente ligadas à raça, à cor e à renda da família.
O impacto da primeira infância
Especialistas reforçam que a primeira infância representa o ciclo mais crítico para a formação humana, sendo profundamente moldada pelo ambiente, pelas interações sociais e pelo acesso a direitos básicos.
“No Brasil, o racismo estrutural e as desigualdades históricas afetam o acesso a serviços de qualidade e as experiências vividas desde cedo. Características como raça, cor ou nível socioeconômico não determinam a capacidade de uma criança de aprender. O que pode influenciar seu desenvolvimento são as condições de vida, acesso aos direitos, as oportunidades que cada criança das múltiplas infâncias recebe”, diz a diretora de Políticas Públicas da fundação, Marina Fragata Chicaro.
Radiografia do aprendizado infantil
Os dados da fundação têm como base o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O exame avaliou alunos de 5 anos matriculados na pré-escola em três frentes: competências fundamentais, processos cognitivos de funções executivas e competências socioemocionais.
No quesito de numeracia emergente, que mede competências como contagem e reconhecimento de padrões, a disparidade entre alunos brancos e pretos chegou a 40 pontos, com médias de 463 e 423, respectivamente, enquanto os pardos registraram 447 pontos. Em relação à memória de trabalho, responsável pela manipulação de dados mentais, os pretos pontuaram 462, os pardos 464 e os brancos alcançaram 471.
Fator socioeconômico intensifica barreiras
As assimetrias se tornam ainda mais drásticas quando a renda familiar entra no cálculo das avaliações educacionais.
A maior distância numérica foi registrada em numeracia, com uma diferença de 84 pontos separando crianças pretas, pardas ou indígenas de baixa renda (416 pontos) e estudantes brancos ou amarelos de classe alta (500 pontos). Na área de literacia — domínio da linguagem e compreensão de narrativas —, a distância foi de 55 pontos entre os mesmos grupos, com médias de 477 e 532 pontos, respectivamente.
Riscos para o futuro educacional
“Quando as desigualdades começam na primeira infância e não são enfrentadas, elas podem se acumular ao longo da vida, ampliando diferenças nas trajetórias educacionais e nas oportunidades futuras. Isso caminha em sentido contrário à construção de uma sociedade mais justa e equitativa, de um projeto país que valorize e compreenda as diversidades como potência”, defende Marina Chicaro.
“Investir na primeira infância combatendo as desigualdades étnico-raciais não é apenas uma questão educacional: é um dever histórico e constitucional, uma responsabilidade coletiva e também um caminho efetivo para reduzir desigualdades e ampliar as oportunidades para todos”, acrescenta.
Caminhos legais e políticas públicas
Apesar do cenário desafiador, o relatório aponta que o país dispõe de ferramentas normativas para reverter o quadro, como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância, a Política Nacional de Equidade para as Relações Étnico-Raciais e o Novo Plano Nacional de Educação.
Entre as recomendações práticas para a gestão pública estão o monitoramento detalhado por quesito de raça, a união de iniciativas universais e focalizadas para populações vulneráveis, o investimento na capacitação docente em áreas periféricas, o fortalecimento do ensino lúdico e a integração entre as áreas de saúde, educação e assistência social.








