–:–:–
Conecte-se conosco

‘Amor possível’ explora luta de classes e cobiça na Mostra SP

Vencedor em Veneza, o novo longa de Lee Chang-dong examina as complexas dinâmicas entre dois casais de diferentes realidades sociais.

48 visualizações
‘Amor Possível’ transforma luta de classes em retrato provocativo da cobiça

O cinema sul-coreano carrega uma forte tradição de usar a luta de classes como matéria-prima para expor as contradições de uma sociedade desigual. Enquanto produções como Parasita, de Bong Joon-ho, abordaram esse tema de forma ácida, o longa Amor Possível, dirigido por Lee Chang-dong (de Em Chamas), aborda o conflito por um prisma mais intimista. Exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, o projeto examina como as pressões econômicas afetam casamentos, laços familiares e desejos ocultos.

Enredos cruzados e disparidade social

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, o drama acompanha dois casais em polos opostos da hierarquia. De um lado estão Mi-ok (Jeon Do-yeon), funcionária de uma usina, o marido desempregado Ho-seok (Sul Kyung-gu) e o filho pequeno. Do outro, Ye-ji (Cho Yeo-jeong), uma mulher de classe média-alta que grava um documentário sobre as demissões na empresa onde o casal humilde trabalhava, e o marido rico Sang-woo (Zo In-sung). Mediada pela produção audiovisual, a aproximação entre essas duas realidades evidencia que o abismo entre elas vai muito além do dinheiro.

O impacto do desemprego na vida doméstica

A obra dialoga com referências do cinema de Ken Loach ao investigar os efeitos da precarização laboral sobre os indivíduos. No entanto, Lee amplia o escopo ao transferir a crise econômica para o ambiente privado, transformando a perda do posto de trabalho em ressentimento e desgaste afetivo.

Após uma onda de demissões e repressão violenta a uma greve, Ho-seok enfrenta as sequelas físicas e emocionais do conflito. Dois anos depois, ele perdeu a autonomia e a capacidade de vislumbrar o futuro, sendo descrito pela esposa como um fantasma dentro de casa. A interpretação de Sul Kyung-gu destaca a imobilidade de um homem cuja masculinidade e senso de utilidade foram destruídos pela falta de ocupação.

Ambição, representação e o olhar documental

Por sua vez, Mi-ok aceita participar do projeto de Ye-ji na esperança de fazer o marido reagir, mas também sente curiosidade pela rotina privilegiada da nova amiga, marcada por conforto financeiro e liberdade.

Essa dinâmica levanta questionamentos sobre os limites da empatia e da representação artística. O roteiro expõe a zona cinzenta em que o sofrimento alheio corre o risco de virar material para um projeto pessoal. Enquanto Sang-woo enxerga a incursão da esposa pelo cinema como mero capricho, Ye-ji demonstra um fascínio por uma experiência de vida que o dinheiro não consegue comprar.

Relações humanas e o mandamento da cobiça

A comparação com Parasita é inevitável devido ao modo como as obras observam personagens que cobiçam o estilo de vida alheio. Contudo, em vez de apostar em uma escalada de violência, a narrativa prefere examinar os movimentos ambíguos da cobiça e as nuances da inveja mútua entre as personagens femininas.

O enredo ganha ainda mais profundidade ao estabelecer diálogos com Decálogo 10, de Krzysztof Kieślowski, refletindo sobre o preceito “Não cobiçarás”. A insatisfação dos protagonistas não surge apenas da escassez material, mas da projeção de salvação e realização pessoal na vida do outro.

Conclusão e tom anticlimático

Com uma direção contida que privilegia a naturalidade dos ambientes e evita resoluções catastróficas, o cineasta constrói um drama sobre os limites do afeto e da solidariedade. Sem oferecer respostas fáceis, o longa deixa uma constatação incômoda sobre a dificuldade de conexões genuínas em um cenário moldado pela disputa daquilo que não possuímos.

Mais em Entretenimento

Ver tudo →