Um documento sigiloso elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) aponta riscos concretos de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, alertando para uma escalada na pressão diplomática e econômica da potência norte-americana sobre o país. O relatório foi enviado no final de agosto a órgãos estratégicos, como a Presidência da República, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério da Justiça.
Contexto geopolítico e laços diplomáticos De acordo com o levantamento da inteligência nacional, a possibilidade de ingerência externa possui alto nível de criticidade. O documento pontua que a prioridade do segundo mandato do presidente norte-americano Donald Trump é assegurar a hegemonia na América Latina, afastando rivais como a China de mercados, riquezas naturais e infraestruturas estratégicas na região.
Apesar das investidas e das medidas consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros, o governo federal tenta preservar o diálogo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva costuma amenizar o cenário publicamente ao declarar que “eu me dou muito bem com o Trump”, aludindo à afinidade pessoal que teria surgido durante a Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025.
Sanções econômicas e tarifas de importação A aparente cordialidade entre os chefes de Estado, contudo, não tem evitado turbulências econômicas. Desde o início de 2025, o Brasil passou a ser alvo de barreiras comerciais. As taxações, inicialmente gerais, ganharam motivação política após o governo dos EUA assinar uma Ordem Executiva classificando o Brasil como ameaça à segurança nacional, elevando as tarifas para 50%.
As justificativas americanas envolveram decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) contra redes sociais associadas a aliados de Trump e a condenação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O governo dos EUA classificou tais desdobramentos como perseguição política a opositores.
Sanções a autoridades e repercussão política A pressão norte-americana incluiu a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e sua esposa, além do cancelamento de vistos de outros magistrados da Corte. Os bloqueios foram celebrados publicamente pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, que acabou sendo condenado pelo STF por coação no curso do processo após incentivar as sanções externas. Posteriormente, os nomes de Moraes e sua esposa foram retirados da lista de restrições.
Mesmo após a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubar tarifas globais impostas por Trump por ferirem os poderes do Congresso, novos pacotes de sobretaxas atingiram produtos brasileiros. O governo norte-americano alegou práticas comerciais desleais, citando o uso do PIX, regulações digitais e acordos com México e Índia, além de acusações sobre trabalho forçado que o governo brasileiro repudiou como arbitrárias.
Atritos na segurança e no cenário internacional A relação bilateral também enfrentou momentos de desgaste quando o Departamento de Estado americano designou as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, medida que o governo brasileiro tentou evitar por temer sanções severas ou intervenções. Dias depois, o visto da embaixada do Brasil nos EUA foi revogado em meio a um impasse diplomático sobre a indicação de representantes.
Apesar das divergências e de críticas públicas de Lula — que classificou como “desaforada” a postura americana ao sugerir novas tarifas —, os líderes mantêm canais de comunicação por meio de ligações telefônicas e reuniões presenciais. Contudo, novos encontros bilaterais não foram oficializados para a próxima Assembleia Geral da ONU.








