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Como os sons folclóricos da Argentina moldam a nova geração

Artistas urbanos e lendas da música tradicional se unem em um movimento que resgata raízes culturais e desafia a crise política no país.

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Como os sons folclóricos da Argentina estão moldando a política e o orgulho nacional de uma geração

O folclore tradicional da Argentina vive um momento de forte valorização e renovação cultural. Impulsionado por colaborações entre lendas da música e jovens astros da cena urbana, o cancioneiro do interior argentino ganha espaço em plataformas de grande alcance e ressoa com força entre os mais jovens.

A ascensão do trap e o resgate das raízes O astro do trap Milo J lançou o disco La Vida Era Más Corta, que rapidamente se consolidou como um marco de um capítulo intergeracional na música do país. O projeto reuniu nomes históricos, como Cuti e Roberto Carabajal, além do mestre da trova Silvio Rodríguez e rebeldes da música urbana, somando-se a uma onda de valorização das raízes também impulsionada por Bad Bunny e Karol G.

Pouco depois, Milo J se uniu ao criador do programa ¡FA!, Mex Urtizberea, para uma série de sessões ao vivo batizada de ¡FAlklore!. Nessas apresentações, Soledad Pastorutti cantou ao lado do jovem trapper uma versão de “Cuando Ya Nadie Te Nombre”, acompanhada por instrumentos tradicionais como o bandoneom e o bombo legüero.

“Estou muito feliz com este momento do folclore”, diz Soledad à Rolling Stone, falando de sua cidade natal, Arequito, na província de Santa Fé. “A Argentina enfrenta muita instabilidade econômica, mas a cultura sempre resiste e renasce com frequência. Minha visão é que o folclore sempre esteve vivo, que a tradição perdura, se renova e nos liga ao passado, como elos de uma corrente que conecta tudo”.

A artista também relembrou os desafios do início de sua carreira, quando alcançou o sucesso após estrear aos 15 anos no Festival Nacional de Folclore de Cosquín. Conhecida como “La Gringa” por vir da região central, ela destacou a importância da nova visibilidade dada ao gênero. “E, ainda assim, o folclore não recebe a mesma visibilidade de outros gêneros musicais”, acrescenta ela, apontando a ambivalência metropolitana que mantém o gênero à margem. “Fico feliz que a presença de artistas como Milo J e Cazzu finalmente tenha despertado o interesse de grandes plataformas de mídia e alcançado novos públicos”.

Descentralização cultural e dissidência política O álbum Latinaje, da artista Cazzu, levou sua atitude desafiadora do trap para ritmos como a cumbia e as chacareras, culminando em uma apresentação histórica em sua província natal, Jujuy. Essa descentralização também aparece no trabalho do rapper Alkoy e do produtor eletrônico Guazuncho, que refratam o chamamé e o tango do nordeste argentino por lentes contemporâneas.

A música tradicional encontrou relevância como ferramenta de crítica social diante da instabilidade do país. O rapper Broke Carrey, em seu álbum Hijo del País, questiona a identidade nacional e aborda a conjuntura política.

“Somos todos filhos desta terra, então somos todos irmãos e vizinhos, mesmo com ideologias opostas”, diz o rapper portenho Broke Carrey.

Canções como “Miguelito”, de Carrey, satirizam o governo atual, enquanto artistas como Valen Bonetto questionam o discurso político vigente. Para Carrey, a busca pelas raízes é uma resposta natural ao cenário de incertezas.

“Este é um dos períodos mais incertos da nossa história e, quando as pessoas buscam um rumo, elas voltam ao folclore”, acrescenta Carrey. “A conexão com a terra faz você se sentir parte de algo, e as pessoas estão encontrando isso na música, no futebol e na comida. Buenos Aires vive um renascimento dos restaurantes tradicionais e da comida tradicional, então há uma nova valorização da nossa identidade”.

Identidade, orgulho e legado O fervor nacionalista argentino também ganhou as telas recentemente, misturando debates esportivos e culturais. Para a cantora Feli Colina, cujos álbuns misturam percussão andina e pop de vanguarda, o amor pela pátria é uma marca registrada da identidade local.

“Talvez mais gente devesse se orgulhar do que é seu”, reflete a cantora e compositora Feli Colina. “Somos insuportáveis, eu sei, mas há algo no amor-próprio e no amor que sentimos pela nossa terra que realmente incomoda as pessoas”.

Colina reforça que a criação artística no país está intrinsecamente ligada à realidade social. “A música e a poesia da Argentina se cruzam com a política”, diz ela, “por isso há um compromisso e um respeito maiores quando falamos da história e dos nossos antepassados”.

O impacto desse cancioneiro atemporal voltou a evidenciar-se quando uma homenagem em vídeo à aposentadoria da seleção de Lionel Messi utilizou a música “Brindis”, de Soledad. A combinação reafirmou o folclore como a memória coletiva de um povo que resiste ao tempo através da arte.

“As pessoas acham que não temos medo de nada, a ponto de parecermos desrespeitosos”, reflete Soledad. “Mas nós, argentinos, somos empáticos e acolhedores. Temos mais tempo para mate, café, churrasco e futebol do que para qualquer outra coisa. Claro, discutimos até a morte, mas depois nos viramos e nos abraçamos. É isso que somos — e também é isso que nossa música é”.

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