O longa-metragem brasileiro “A Margem do Rio” mistura com precisão erotismo, suspense, misticismo e religiosidade ao acompanhar a trajetória de Izaquiel. O protagonista, um homem negro e gay interpretado por Caíque Copque, transita entre a precariedade trabalhista, encontros sexuais clandestinos e as contradições de uma instituição religiosa focada em controlar corpos inadequados. Vencedor de cinco prêmios no Festival do Rio 2026, a produção transforma essa vivência em um thriller eletrizante que utiliza o desejo e o sobrenatural como ferramentas de confronto contra a hipocrisia religiosa.
O contexto social e o diálogo com o cinema nacional
Nos últimos anos, produções audiovisuais brasileiras têm retratado homens gays marginalizados, conectando sexo, sobrevivência e afeto em títulos como “Parque de Diversões”, “A Rua da Glória”, “Ato Noturno” e “Baby”. A nova obra dialoga diretamente com essa vertente, mas expande sua investigação ao inserir a religião e o misticismo como forças disputando o controle dos corpos. Em vez de focar apenas na intimidade relacional, os diretores Matheus Farias e Enock Carvalho — dupla responsável pelo aclamado curta “Inabitável” (2020) — mostram como o desejo individual colide com estruturas sociais violentas.
No Recife, Izaquiel atua como auxiliar de serviços gerais, enfrentando a invisibilidade social durante o dia. Já no período noturno, ele busca refúgio e prazer nos manguezais da cidade, onde se envolve com o misterioso pescador Jeremias, interpretado por Ítalo Martins. Essa dualidade entre a luz do dia e a escuridão da noite transforma a paisagem natural em um território de estranhamento e perigo iminente, aproximando o suspense de uma camada espiritual onde mito e realidade se fundem.
Confronto com o poder religioso e raízes pessoais
O conflito atinge outro patamar na relação com a igreja liderada pelo pastor Eurico, papel de Robério Diógenes. A fé se manifesta como um sistema opressor que delimita o comportamento e o desejo humano. O roteiro evita dicotomias fáceis entre sagrado e profano, focando em como o discurso moral é instrumentalizado para promover a intolerância. Essa abordagem tem forte raiz pessoal para Matheus Farias, que passou duas décadas em lideranças religiosas antes de se afastar devido a abusos motivados por sua sexualidade.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o cineasta relatou como a exposição e a humilhação de pessoas LGBTQIA+ eram parte de uma estrutura de silenciamento. Essa experiência ajuda a compreender a força com que o filme aborda a hipocrisia religiosa: a violência não está apenas nas ameaças explícitas, mas também na exigência de que alguém negue a própria identidade para continuar pertencendo a uma comunidade.
Redes de apoio e afeto na marginalidade
A sensibilidade social dos diretores também se reflete na representatividade trans, visível no círculo de amigas que acolhe o protagonista. No Festival do Rio, o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante foi compartilhado por Renna Costa, Artia e Ísis Broken. O retorno da personagem Mica, interpretada por Artia, após um sumiço, evidencia a solidez desses laços comunitários. O roteiro demonstra que a marginalização também gera redes genuínas de cuidado, permitindo que os personagens construam formas coletivas de existência.
Em suma, a obra articula temas complexos sem se limitar à representação passiva da exclusão. Ao transformar o manguezal em epicentro de mistério e desejo, o longa recusa a passividade diante da intolerância. Para quem passou tanto tempo à margem, talvez seja mesmo a hora de confrontar — e que seja com tesão.







