O conflito na Faixa de Gaza completa três anos nesta quarta-feira (7) sob um cenário de persistentes bombardeios e estagnação em torno do acordo de paz intermediado pelos Estados Unidos. Atualmente, o território palestino permanece com 60% de sua área sob ocupação militar israelense, enquanto operações aéreas atingem rotineiramente zonas densamente povoadas.
Crise humanitária e fome em Gaza Dados do Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários apontam que dezenas de palestinos foram mortos e feridos em poucas semanas, elevando o total de vítimas fatais desde o anúncio de um cessar-fogo anterior. A situação agrava-se com cortes drásticos na produção de refeições quentes devido à escassez de financiamento internacional para as operações de socorro.
A professora de relações internacionais Isabela Agostinelli avaliou que a situação dos quase 2 milhões de palestinos “não melhorou em nenhum sentido” com o suposto cessar-fogo.
“A situação humanitária ainda é catastrófica. Pouca ajuda humanitária sendo permitida de entrar por parte de Israel, que continua sendo o ator soberano que controla as fronteiras. O Conselho de Paz presidido por Trump não trouxe paz em nenhum sentido, não há perspectiva de reconstrução de Gaza”, afirmou a especialista.
O impasse sobre o desarmamento As negociações diplomáticas esbarram em divergências fundamentais sobre a segurança e o controle político do enclave. Especialistas apontam que a exigência de desmilitarização confronta a resistência de grupos locais em depor armas antes da retirada completa das tropas estrangeiras.
O professor de relações internacionais Bruno Huberman explicou que um dos impasses no “plano de paz” do presidente dos EUA, Donald Trump, é o fato de o Hamas apenas aceitar se desarmar depois que Israel deixar Gaza, o que não tem ocorrido.
“Para Israel desocupar Gaza, eles falam que o Hamas tem que se desarmar. A gente está nesse impasse, e os EUA não estão se colocando para destravar esse impasse”, comentou o coordenador do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (Geci) da PUC-SP.
Huberman acrescentou que Israel impede o retorno a Gaza do “comitê tecnocrático” de palestinos, sem ligação com partidos, que seria responsável por monitorar a reconstrução do território.
“Esses palestinos foram ao Cairo para discutir a reconstrução de Gaza em novembro do passado, quando Trump anunciou o plano de paz. Desde então, estão exilados no Egito porque Israel proíbe a sua entrada em Gaza. Isso é um exemplo de como Israel impede qualquer esforço para reconstrução”, destacou.
Desesperança e impacto na Cisjordânia O prolongamento das hostilidades tem gerado um clima profundo de desesperança entre os habitantes locais, enfraquecendo as perspectivas de estabilização política a longo prazo.
“Os palestinos sempre foram muito famosos por manter um brio na resistência muito grande, apesar de qualquer revés. Mas o pouco contato que tenho com os palestinos que estão lá, e também com os palestinos que vivem fora e vão visitar, é uma desesperança que, para mim, é inédita”, disse Bruno Huberman.
Paralelamente, a situação na Cisjordânia também se deteriora com a aceleração de assentamentos e o aumento de confrontos, enquanto lideranças locais articulam novas estratégias políticas e eleitorais para o futuro da administração palestina.







