A Caixa Cultural Rio de Janeiro abriga uma extensa retrospectiva dedicada a um dos maiores nomes da sétima arte no país, exibindo dezenas de produções que marcam quase setenta anos de carreira. Com entrada franca até 16 de outubro, a programação contempla 17 longas-metragens e dois documentários sobre a trajetória do artista, indo desde o clássico Os Cafajestes (1962) até a obra mais recente A Fúria (2024).
Trilogia dos fuzis e o personagem Mário O encerramento da mostra traz o filme mais recente do diretor, que conclui a famosa sequência iniciada em 1964 com Os Fuzis e continuada em 1978 com A Queda. “São três filmes sobre um personagem o Mário que é um cara de uma retidão muito grande e por andamento é muito abalado na vida” disse o curador e cineasta Aristeu Araújo em entrevista à Agência Brasil.
Exibição rara em 4K e desafio das cópias Um dos pontos altos do evento é a apresentação de Ternos Caçadores (1969), produção francesa pouco difundida no Brasil que ganhou uma nova versão restaurada em alta definição. A curadoria também precisou lidar com os desafios de conservação do cinema nacional, recorrendo a arquivos físicos para exibir raridades como Kuarup. “Durante o processo do projeto a gente descobriu que o filme foi produzido na França na década de 1960 e dirigido pelo Ruy. Estava praticamente perdido e não era exibido há muito tempo, mas tinha sido restaurado em 4K e vamos exibir, o que ocorreu em raríssimas exceções. Foi exibido em Curitiba e aqui no Rio pelo aniversário do Ruy Guerra em agosto”, contou o organizador sobre a obra francesa.
Ele complementou sobre a circulação internacional: “O filme teve uma carreira boa, pelo que o Ruy fala, no lançamento na França e na Espanha também foi bem, mas aqui no Brasil foi pouquíssimo exibido. É uma oportunidade muito interessante para o público assistir”.
Sobre a cópia alternativa de Kuarup, o responsável pela curadoria pontuou: “A gente exibiu em Curitiba, mas com aviso para o público. Eu falava antes das exibições que era a única cópia possível de ser exibida. Agora no Rio, a gente vai ter a possibilidade de exibi-lo em película”.
Democratização cultural e masterclass A decisão de manter o acesso totalmente livre faz parte de um esforço para aproximar o público da filmografia histórica. Aos 95 anos, o homenageado — que acumula atuações como roteirista, dramaturgo e poeta — ministrará uma aula magna gratuita neste sábado (3) sobre a concepção política de sua trilogia principal.
Raízes no Cinema Novo e paixão pela literatura Nascido em Moçambique durante o colonialismo português, o diretor mudou-se para a Europa antes de desembarcar em terras brasileiras em 1958, consolidando-se ao lado de grandes nomes na renovação estética da época. Sua filmografia é marcada por forte veia política e diálogo constante com a palavra escrita, adaptando autores consagrados e colaborando com ícones da MPB. “Ele queria trabalhar com literatura, queria ser escritor, mas na juventude o pai fez pressão para ter uma profissão. Ele já gostava muito de cinema e falou que o cinema é uma má profissão, mas é uma profissão. Ele nunca se distanciou da literatura”, revelou o curador sobre os desejos iniciais do artista, que planeja manter sua rotina de gravações antes de retornar integralmente aos livros: “Ele tem essa história em que fala que vai filmar até só 100 anos para depois se dedicar à literatura”.








