Investigações conduzidas ao longo de anos revelam a profunda colaboração entre o setor privado e o regime militar instalado no país em 1964. Uma publicação recente traz à tona documentos e depoimentos que comprovam o envolvimento direto de grandes companhias na sustentação do aparato repressivo, indo muito além do apoio econômico e alcançando o monitoramento sistemático de funcionários.
O envolvimento das fabricantes de veículos O escrutínio sobre essa relação começou a ganhar força institucional em 2015, quando o Ministério Público de São Paulo passou a examinar a atuação de empresas durante o período autoritário, com base em dados da Comissão Nacional da Verdade. Anos mais tarde, investigações independentes encomendadas pela própria Volkswagen confirmaram a conivência da diretoria com os órgãos de segurança da época.
“A VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar e compartilhou os seus objetivos econômicos e de política interna.”
“Está claro que a Volkswagen estabeleceu por disposição própria uma intensa relação de contribuição com os órgãos de repressão política, muito além dos limites da fábrica. A empresa demonstrou vontade de participar do sistema repressivo, sabendo que submetia seus funcionários a risco de prisões ilegais e tortura”
Redes de espionagem e financiamento corporativo O livro recém-lançado amplia esse escopo ao analisar a atuação de múltiplos conglomerados industriais e financeiros, com foco principal nas montadoras instaladas na região metropolitana paulista. O levantamento demonstra que o suporte financeiro se estendia a estruturas de treinamento de tiro e fornecimento de insumos para as forças de segurança.
“A gente teve informação de muitas empresas, mas focamos em cinco delas: a Mercedes-Benz, a Volkswagen, a General Motors, a Scania e a Ford. Centramos [o trabalho] na região do ABC e nas grandes metalúrgicas”
“Elas financiavam com dinheiro a máquina da repressão. E como a coisa foi surgindo? A gente estava analisando os livros de registro de entrada do Dops [Departamento de Ordem Política e Social] aqui no Largo General Osório [na capital paulista] e ali descobrimos uma lista de ramais. Nessa lista tinha um ramal de um estande de tiro. E descobrimos que algumas empresas financiavam equipamentos para esse estande de tiro tais como munições e até compra de protetor auricular. O protetor auricular era a GM quem financiava”
Controle ideológico e listas de exclusão Além do aporte financeiro, o ambiente fabril era marcado pela infiltração de agentes disfarçados de empregados, cujo objetivo era identificar opositores e lideranças sindicais. O simples ato de paralisar as atividades por melhores salários resultava na exclusão definitiva do mercado de trabalho por meio de cadastros restritivos compartilhados entre as corporações.
“Os arapongas eram pessoas que se misturavam ali com os trabalhadores e que depois iam dedurar quem estava fazendo reivindicações”
“Havia um conjunto de ações que as empresas adotavam para reforçar ou firmar essa cumplicidade com a ditadura e ir expulsando os trabalhadores. Por exemplo, se o trabalhador participava de uma greve, ele não precisava nem ser de um partido de oposição ou de combate à ditadura, se ele participava de uma greve, ele já entrava numa lista. Essa lista, que hoje a gente chama de lista suja, era espalhada para várias outras empresas, então ele nunca mais conseguia emprego”
Condições extremas e o braço clandestino no ABC As jornadas de trabalho eram severas, marcadas por índices alarmantes de acidentes não contabilizados adequadamente e por forte assédio moral, que afetava de maneira particular as mulheres contratadas ainda na adolescência. Paralelamente, a apuração identificou a existência de uma unidade descentralizada do DOPS em São Bernardo do Campo, operando próxima a entidades sindicais para deter e interrogar civis.
“A gente descobriu a existência de uma filial do DOPS no ABC que ficava a três ou quatro quadras distante da sede do sindicato. Lá, as pessoas eram presas e torturadas. Para lá iam presos os trabalhadores, pessoas ligadas aos movimentos eclesiais de base ou de movimentos de melhoria nos bairros. A gente conta a história, inclusive, de um menor de idade que foi preso e torturado ali”
Diante das revelações trazidas pela obra, as companhias citadas adotaram diferentes posturas: algumas destacaram termos de ajustamento de conduta firmados com autoridades, enquanto outras negaram qualquer tipo de cooperação ou alegaram não possuir registros documentais da época.








