Jovens brasileiros são selecionados para a Conferência da ONU sobre a Água
Dois brasileiros estão entre os cem jovens de 75 países escolhidos para integrar a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a Água, que ocorrerá em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, entre 8 e 10 de dezembro. O ativista Erleyvaldo Bispo, natural de Lagarto (SE), e a bacharel em direito Laura de Azevedo Viana, de Salvador (BA), foram selecionados pelo programa Global Youth Water Envoys.
Preparação e o papel da juventude no cenário global
O processo seletivo do programa, promovido pelo Centro da Juventude Árabe (AYC) em parceria com o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, atraiu cerca de duas mil candidaturas. Os escolhidos passarão por dois meses de preparação para garantir que as prioridades das novas gerações e as realidades hídricas locais integrem o diálogo internacional.
O ministro para Assuntos da Juventude dos Emirados Árabes e vice-presidente do AYC, Sultan bin Saif Al Neyadi, destacou a importância da comitiva. Os jovens enviados participarão da conferência como “colaboradores qualificados, preparados para questionar pressupostos e representar as realidades de comunidades que, com bastante frequência, são objeto de discussões sem que suas vozes sejam devidamente ouvidas”. Ele acrescentou que “o valor de sua participação será definido pelo conhecimento que trazem, pelo rigor de sua preparação e por sua capacidade de transformar experiências em propostas que possam ser colocadas em prática pelos tomadores de decisão”.
A trajetória de Erleyvaldo Bispo e a luta pela soberania hídrica
Aos 28 anos, Erleyvaldo cresceu no agreste sergipano enfrentando poços secos e a dependência de carros-pipa. Essa experiência o levou a fundar a ONG Águas Resilientes. “Por ter vivido a falta d’água, acredito que isso me coloca em uma posição de pessoa que, de fato, valoriza a água”, declarou à Agência Brasil. Ele também afirmou: “Vou levar a voz de milhares de brasileiros que acordam todos os dias sem saber se terão água para beber”.
Em sua bagagem para o Oriente Médio, o ativista levará preocupações climáticas como os impactos do Super El Niño e o risco de colapso da Amazônia a partir de 2050, fundamentado em estudos científicos. Para ele, a pauta da água está diretamente ligada à soberania nacional. “Falar sobre água é falar sobre soberania nacional”, pontuou, reforçando que a prioridade deve ser o investimento em projetos voltados ao Sul Global.
Racismo ambiental e governança dos oceanos na visão de Laura Viana
Representando a Bahia, a pesquisadora Laura de Azevedo Viana, de 23 anos, investiga a governança dos oceanos e o racismo ambiental pelo Instituto Brasileiro de Direito do Mar. Moradora de Cajazeiras, bairro periférico de Salvador, ela relatou vivências de interrupções prolongadas no abastecimento. “Já passei por diversas situações em que o fornecimento de água era cortado por dias, já chegou a durar semanas, um bairro inteiro sem água”, relembrou, acrescentando: “Isso não acontece em bairros nobres de Salvador, ocupados por pessoas que possuem melhores condições financeiras e são brancas”.
A pesquisadora defende que o ativismo e o rigor científico caminhem juntos para dar visibilidade a povos indígenas, quilombolas e costeiros. “A pesquisa ajuda a comprovar essa desigualdade, e quem escreve sobre esses temas hoje influencia o que o direito dirá amanhã”, explicou. Laura concluiu exigindo mudanças estruturais: “Minha principal bandeira é a proteção dessas comunidades, junto com a participação verdadeira da juventude. Precisamos de um espaço institucional permanente, e não apenas de eventos simbólicos, para sermos ouvidos”.
A terceira Conferência da ONU sobre Água busca acelerar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), que visa assegurar a gestão sustentável da água e saneamento para todos, reunindo governos, cientistas e sociedade civil.








