O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, revelou que o governo se preparou ao longo do último ano para o “risco extremo” de que o presidente Donald Trump pudesse ordenar uma ação militar contra o Canadá. A revelação expõe o nível de preocupação em Ottawa diante das investidas da administração americana, embora o premiê mantenha um canal de diálogo frequente com Washington, mesmo após o colapso das negociações comerciais no mês passado.
Redução da dependência tecnológica
Em entrevista concedida em Manhattan, Carney detalhou que vem diminuindo sistematicamente a vulnerabilidade canadense em áreas tecnológicas estratégicas, que vão desde satélites até caças militares. O plano governamental busca diversificar parceiros internacionais para assegurar que o país não fique à mercê de pressões políticas vindas de Washington, garantindo maior autonomia a longo prazo.
Entre as medidas adotadas, o líder canadense citou esforços para reduzir a dependência da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX, de Elon Musk, além de avaliar alternativas à compra dos caças F-35. Questionado sobre ameaças de Trump relacionadas à soberania canadense, Carney indicou que analisou seriamente a possibilidade de uma invasão liderada pelos EUA, mas evitou aprofundar o assunto.
“Você tem a responsabilidade, nesse tipo de cargo, de analisar riscos extremos”, afirmou. “Isso é simplesmente gestão de risco. Não é o cenário-base, mas seria irresponsável não se preparar.”
Relação direta e comércio bilateral
Apesar do cenário de atrito, o chefe de governo afirmou que fala com Trump “frequentemente” e que os dois se comunicaram “várias vezes” desde o rompimento das conversas econômicas em agosto, descrevendo a relação como tensa, direta e em constante evolução.
“Da minha perspectiva, temos um bom relacionamento, no sentido de que podemos pegar o telefone e conversar sobre os assuntos”, disse. “Ele é direto. Eu também sou direto. Isso torna tudo mais eficiente.”
Carney também sustentou que ainda existe caminho para retomar as negociações comerciais e reconstruir o pacto que fracassou no fim de agosto.
“Existe um acordo comercial mutuamente benéfico entre Canadá e EUA? Absolutamente”, disse.
O premiê reforçou ainda que a integração econômica histórica, como no setor automotivo, não deve ser desfeita por caprichos protecionistas.
“Toda a minha vida, e tenho 61 anos, tivemos um setor automotivo integrado”, afirmou. “Tentar repatriar toda a produção para os Estados Unidos não faz sentido.”
Segurança energética e soberania global
Mesmo diante de disputas envolvendo tarifas e insumos como a potassa, o governo de Ottawa demonstra cautela e descarta utilizar o fornecimento de energia como arma de retaliação econômica, lembrando que grande parte do petróleo e da eletricidade consumida nos Estados Unidos depende diretamente do território canadense.
“Se você é um parceiro confiável e fornece energia ou alimentos para alguém, o limite para mudar isso é muito, muito alto”, afirmou.
Por fim, ao abordar o cenário financeiro e tecnológico internacional, o premiê reforçou a necessidade de afastar o país de monopólios estrangeiros e de um sistema financeiro global baseado unicamente no dólar americano.
“Da Starlink nós vamos nos afastar, sem dúvida”, declarou.
“É a lógica do ‘me engane uma vez, me engane duas vezes’”, disse Carney. “Quando você percebe isso, começa a pensar em como diversificar.”








