A relação dos Beatles com substâncias alucinógenas moldou profundamente a trajetória criativa do quarteto britânico durante a fase psicodélica, resultando em obras ambiciosas e inovadoras. Enquanto trabalhos anteriores já flertavam com estimulantes, o ano de 1966 marcou uma guinada sonora sem precedentes após o primeiro contato direto do grupo com o LSD, substância que redefiniria a identidade artística dos músicos.
A primeira experiência com o alucinógeno
A introdução acidental ao ácido lisergico ocorreu durante um jantar em Londres, conforme relatado por George Harrison em entrevista à CBS em 1978. O guitarrista relembrou a experiência vivida em conjunto com Lennon: “Uma grande mudança aconteceu em 1966, particularmente para John [Lennon] e eu. Um dentista que estava jantando conosco colocou este LSD no nosso café”.
O episódio aconteceu na residência do dentista John Riley, reunindo John Lennon e sua esposa Cynthia, além de Harrison e Pattie Boyd. A viagem inicial teve momentos de forte tensão e pânico, levando o grupo a deixar o local rumo ao clube Ad Lib. Durante o trajeto no elevador, a paranoia tomou conta dos artistas: “Todos nós pensamos que havia um incêndio no elevador”, Lennon à Rolling Stone. “Era apenas uma pequena luz vermelha, e estávamos todos gritando, com calor e histéricos”.
Epifania e o impacto duradouro na criatividade
Apesar do susto inicial, os efeitos evoluíram para uma profunda experiência espiritual, especialmente para o guitarrista. Em participação no programa de Dick Cavett em 1971, o músico detalhou a sensação: “Tive uma sensação tão avassaladora de bem-estar, de que havia um Deus, e eu podia vê-lo em cada fio de grama. Foi como adquirir centenas de anos de experiência em 12 horas”.
A noite terminou na residência de Harrison em Esher, gerando impressões marcantes e duradouras em Lennon: “Meu Deus, foi simplesmente aterrorizante, mas fantástico. A casa de George parecia um grande submarino… Parecia flutuar acima do muro, que tinha 5,5 metros de altura, e eu o pilotava. Fiz alguns desenhos na época, de quatro rostos dizendo: ‘Todos concordamos com você’. Fiquei bastante chapado por um ou dois meses.”
Para Harrison, o impacto foi definitivo e transformador. “Agora, as pessoas que já usaram isso, vão saber o que estou falando sobre, e qualquer um que não usou não vão fazer ideia. Porque [o LSD] te transforma”, completou Harrison à CBS. “Depois disso, eu não precisei usar nunca mais. Essa é a coisa sobre LSD: você não precisa udar duas vezes”. Na entrevista de 1978, o instrumentista também ressalta que usou a substância “muitas vezes, mas eu so precisei usar uma vez.”
O legado nos grandes álbuns do grupo
Essa imersão na psicodelia e na espiritualidade impulsionou a criação de marcos absolutos da discografia da banda, como os álbuns Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e Magical Mystery Tour (1967). A expansão da consciência proporcionada pelo ácido também aproximou George Harrison do hinduísmo e da música indiana, elementos que enriqueceram permanentemente a sonoridade e o lirismo dos Beatles.








