Participantes da segunda edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, fizeram um apelo para que a população eleja candidatos comprometidos com o avanço de políticas sobre drogas alinhadas à justiça social.
Debate no Centro Dragão do Mar O Anfiteatro Sérgio Motta, localizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, foi palco de discussões onde especialistas enfatizaram a importância de votar em representantes que compreendam profundamente o tema. A proposta é viabilizar medidas práticas que atendam de forma efetiva às demandas da sociedade.
A médica de família e comunidade Magda Almeida, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), apontou falhas na abordagem tradicional sobre o assunto durante sua palestra.
“Há uma posição ideológica de se reduzir tudo à ideia de que ‘maconha faz mal’.”
Impactos do uso de medicamentos e panorama da cannabis A especialista destacou que a população negra e empobrecida é a principal afetada pela chamada “guerra às drogas” no país. Em sua rotina de atendimento, ela relata observar o uso frequente de pregabalina — fármaco receitado para ansiedade, epilepsia e fibromialgia, condições que poderiam ser tratadas com cannabis. De tarja vermelha, o remédio pode causar efeitos colaterais graves, como alucinações, pensamentos suicidas e síndrome de abstinência.
Dados da Blis Data mostram que mulheres mais velhas e empregadas lideram o consumo de cannabis medicinal importada no Brasil, buscando alívio para dores crônicas e distúrbios do sono. Além disso, o 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) aponta que a maconha é o entorpecente ilícito mais consumido no país, com o uso dobrando entre adultos e adolescentes na última década.
A médica também criticou a padronização de doses pela indústria farmacêutica.
“Existe uma máxima, que é ‘comece lento e continue lento’, que é quebrada pela indústria.”
“Cannabis não serve para tudo. Nenhum remédio serve para tudo”, disse.
Consequências sociais e o custo do encarceramento Outro ponto central nos painéis foi a relação entre a seletividade policial, o encarceramento em massa da população negra e o crescimento de facções criminosas. Dados recentes do Datafolha indicam que quatro em cada dez brasileiros vivem sob a influência dessas organizações.
O advogado criminalista Italo Coelho traçou um paralelo histórico entre a repressão à capoeira, ao samba e à cannabis, criticando as contradições do mercado atual.
“A indústria tem agora todo o direito de vender, nas farmácias, maconha enquanto pessoas são presas por causa de um baseado e ainda consideradas traficantes”, acrescenta Coelho, que é militante no Ceará Saúde Livre.
Tamára Silva, da coordenação da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), apontou que a resposta estatal limita-se à repressão.
“A gente está vivendo isso há mais de 100 anos. Acompanha cada vez mais o narcotráfico faturando bilhões, vendo a nossa juventude sendo aliciada, a nossa cidade sendo territorializada por essas organizações criminosas, essas facções, definida a partir da lógica da violência.”
A mediadora Bianca Cardial reforçou que prisões por porte de pequenas quantidades continuam ocorrendo durante a realização do evento. Relatórios apontam que o impacto financeiro para as famílias manterem parentes no sistema carcerário consome cerca de 70% de um salário mínimo. O Ipea estima ainda que os custos com homicídios ligados à proibição alcancem R$ 50 bilhões anuais no Brasil.
Organização e parcerias da feira O evento foi idealizado pela Agência Liamba 360° em conjunto com a Adapta Associação Canábica, contando nesta edição com a parceria da Auê Feira e um espaço voltado para associações nordestinas de acolhimento a pacientes de cannabis medicinal.








