A presença de produções focadas em narrativas de artistas negros tem ganhado relevância no cenário nacional, destacando-se na corrida por premiações internacionais. No entanto, lideranças do setor apontam que a disparidade estrutural ainda desafia a equidade dentro da indústria cinematográfica brasileira.
Destaque internacional e desigualdade estrutural
Entre os seis longas pré-selecionados para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar, três contavam com direção de cineastas negros. Além da obra escolhida, a lista contava com outros dois títulos de diretores negros.
“São histórias que emocionam, desafiam convenções e conquistam espaço nos maiores palcos do cinema mundial”, afirma a presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan), Tatiana Carvalho.
Apesar da visibilidade conquistada nos festivais, a proporção de oportunidades permanece distante da realidade demográfica de um país de maioria negra. A cobrança por maior justiça na distribuição de recursos e apoio institucional tem motivado mobilizações recentes do setor.
Cobranças por fomento e documento do setor
Recentemente, a entidade publicou um documento direcionado ao mercado e aos candidatos políticos, exigindo maior permanência e representatividade de profissionais negros na cadeia produtiva. Os dados levantados revelam um cenário de assimetria tanto na televisão aberta quanto nas telas de cinema.
Nas produções cinematográficas, a participação de pessoas brancas atinge quase 70%, enquanto profissionais negros representam menos de um terço do total, acumulando também menores remunerações. O desequilíbrio atinge de forma drástica o financiamento federal, concentrado majoritariamente em projetos liderados por diretores brancos.
“A carta propõe alterações e melhorias no que já existe de política pública. Cinema negro é cinema brasileiro. Defendemos políticas afirmativas do setor e uma perspectiva menos excludente”, argumenta.
Avanços regulatórios e novos desafios
O cenário tem recebido suporte de iniciativas governamentais recentes, como o fomento cultural impulsionado por leis de incentivo e a reativação de conselhos voltados ao audiovisual. Contudo, a fiscalização desses recursos tem gerado alertas por parte da associação, que relata desde fraudes em autodeclarações até o afastamento de profissionais após a liberação das verbas.
Para combater essas falhas, a criação de bancas de heteroidentificação é apontada como uma medida urgente. Além disso, o fortalecimento de leis de proteção de mercado e a exibição de conteúdos nas escolas são estratégias fundamentais para formar novas plateias.
“Quando a gente fala em defender 20% de cota de tela nos cinemas, há uma gritaria falando que é censura de cinema internacional”, pontua Tatiana Carvalho, criticando a timidez da legislação atual.
O debate sobre a ampliação das ações afirmativas inclui o conceito de empresas voltadas à reparação histórica, buscando garantir bases sólidas para a diversidade.
“Isso é o que há de mais importante. Vai ao encontro de outra legislação que determina o ensino de cultura africana brasileira e história, além de cultura indígena no contexto da educação básica”, conclui.








