Descubra o que a ciência diz sobre idosos e fake news. Pesquisas recentes mostram que o compartilhamento é uma escolha ideológica, e não ingenuidade.
O tio envia um áudio no grupo da família alertando sobre chips em vacinas, o pai repassa uma captura de tela sem data e a avó afirma ter lido aquilo em algum lugar. O senso comum consolidou a ideia de que os mais velhos acreditam em qualquer boato na internet. No entanto, investigações recentes colocam essa narrativa em xeque e revelam que a realidade do ambiente digital é bem diferente da suposição de inocência.
O papel do vínculo partidário
Um estudo divulgado pelo periódico Journal of Experimental Psychology: General, em novembro de 2025, analisou cerca de 2.500 adultos nos Estados Unidos e no Brasil e derrubou o estigma. O material apontou que os idosos não apresentam dificuldades maiores para diferenciar conteúdos verídicos de mentirosos. O fator determinante que se altera com a idade é a intensidade do alinhamento político, fazendo com que aceitem e repassem o que favorece o próprio grupo, independentemente da veracidade.
A reputação dos mais velhos como grandes disseminadores de conteúdos falsos teve origem na eleição presidencial americana de 2016. Na ocasião, pesquisadores identificaram que esse grupo foi o que mais encaminhou links falsos no Facebook. Contudo, o mesmo levantamento demonstrou que a prática era minoritária: apenas 11 a cada cem indivíduos com mais de 65 anos compartilharam algum material falso, em comparação a 3 entre os jovens.
Checagem e o impacto da inteligência artificial
Contrariando a visão de vulnerabilidade tecnológica, uma pesquisa liderada por Annalise Baines, Eszter Hargittai e John Palfrey em dezembro de 2025 com 2 mil americanos acima de 60 anos indicou que cerca de dois terços desse público verificam a origem, analisam os comentários e comparam com outras fontes antes de dar crédito a uma informação.
Focar na suposta fragilidade da terceira idade desvia o foco do verdadeiro problema: a fabricação em massa de inverdades. Com o avanço tecnológico, o custo para gerar desinformação caiu drasticamente. A inteligência artificial permite clonar vozes e criar vídeos falsos verossímeis em uma escala industrial inacessível para usuários comuns.
Regulamentação e o combate às fraudes
Para frear essa onda de manipulação, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu na Resolução nº 23.755, em março de 2026, novas diretrizes para o uso de inteligência artificial em campanhas, exigindo avisos claros sobre a fabricação digital dos materiais. Meses depois, a Corte definiu os critérios para caracterizar e proibir o uso de deepfakes.
Apesar de todo o arcabouço normativo e das ferramentas de checagem, a base de grande parte das discussões ainda se apoia na falácia de que existe um usuário ingênuo precisando de tutela. Os dados provam que os idosos conseguem separar fatos de mentiras perfeitamente. Portanto, o compartilhamento não decorre de falta de discernimento, mas sim de convicção e identificação com uma causa.
Tratar a questão sob a ótica da fragilidade do eleitor impede que o foco seja direcionado para a raiz ideológica do problema, que atinge todas as faixas etárias. Continuar enxergando a terceira idade como vítima preferencial evita encarar o fato de que a decisão de repassar determinados conteúdos é consciente e alinhada a convicções bem definidas.








