O encarecimento da habitação e a disparada no valor dos aluguéis e da venda de imóveis provocaram uma onda de protestos nas principais cidades de Portugal. O movimento começou há três semanas com a instalação de tendas em uma praça no Porto, iniciativa que logo se repetiu na Praça do Rossio, em Lisboa.
Confrontos e autorização judicial
Apesar de intervenções policiais para dispersar os acampamentos sob o argumento de ocupação irregular de espaço público — resultando em denúncias de feridos —, os manifestantes têm remontado as estruturas. Recentemente, a Justiça permitiu a manutenção do acampamento na capital até o final de novembro, enquanto comerciantes locais manifestam preocupação com os impactos econômicos e com a proximidade de eventos tradicionais.
Disparidade salarial e impacto na vida dos imigrantes
Dados do portal Pordata indicam que o custo da moradia no país disparou 41,5% entre 2020 e 2025, o maior salto da União Europeia. Um levantamento do Conselho Europeu e do Deutsche Bank apontou que alugar um imóvel em Lisboa consome, em média, 116% da renda local, tornando a cidade única entre 22 capitais pesquisadas onde o salário médio não cobre a locação.
A ativista brasileira Priscila Valadão, residente em Portugal há mais de uma década, relata as dificuldades enfrentadas diariamente por moradores e recém-chegados:
"No centro de Lisboa, você não consegue encontrar um apartamento tipo loft, que a gente chama aqui de T0, por menos de 1.500 euros, sendo que é o salário mínimo português é 920 euros. Então, é simplesmente impossível uma pessoa morar na cidade"
Ela acrescenta sobre a realidade habitacional:
"A grande maioria das pessoas acaba indo morar num quarto. Não existe outra maneira de você viver em Lisboa. Isso também se estende para a periferia da cidade. Posso dar o meu exemplo. Eu moro hoje com uma menina jovem. Eu tenho que dividir casa porque não tenho condição de pagar uma casa sozinha. E, mesmo assim, moro na periferia da cidade, na região metropolitana."
A comunidade brasileira, que representa quase meio milhão de pessoas registradas na Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima) — cerca de um terço dos imigrantes no território —, também enfrenta barreiras discriminatórias na busca por residência.
"Doze anos atrás, eu já via pessoas falarem que os donos dos imóveis, quando ouviam pelo telefone, que [o potencial locatário] era um brasileiro, desligavam o telefone e falavam que o apartamento já estava alugado. E era mentira"
"Também ouvia relatos de que uma das condições [para alugar para brasileiros] era pedir 12 rendas [aluguéis] adiantadas para que conseguisse dar entrada no apartamento. E está cada vez pior, com a crescente xenofobia e racismo que têm acontecido no nosso dia a dia"
Reivindicações e resposta governamental
Os manifestantes apontam a especulação imobiliária internacional e a conversão de residências em alojamentos turísticos como principais catalisadores da crise, além de criticarem o projeto de lei sobre arrendamentos em tramitação, que prevê facilidades para despejos e aumento de cauções. As demandas incluem a expansão de habitações públicas e o controle da inflação.
Em contrapartida, o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou um pacote de investimentos de 10 bilhões de euros para viabilizar 133 mil novas moradias públicas e parcerias com o setor privado. O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, reforçou que o executivo implementa um programa habitacional abrangente para ampliar o acesso à moradia e regular o mercado.








