O mercado financeiro brasileiro enfrenta uma reviravolta após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A estratégia de buscar ganhos com ativos locais nos próximos anos precisará ser completamente reformulada em comparação aos planos que os investidores traçavam até recentemente, conforme aponta a XP Investimentos.
Mudança nas expectativas fiscais
Antes do segundo turno, a principal aposta do mercado envolvia a queda dos juros de longo prazo e a alta da Bolsa, impulsionada pela perspectiva de rigor nas contas públicas. Contudo, as estimativas de Rodrigo Sgavioli, head de alocação da instituição, indicam que a probabilidade de um ajuste fiscal consistente despencou de até 70% para uma faixa entre 20% e 30%.
Essa revisão abrupta provocou forte volatilidade nos mercados. Na segunda-feira (26), logo após o pleito, o Ibovespa acionou o circuit breaker e registrou queda de 13,88%, o pior desempenho desde março de 2020. No mesmo pregão, o dólar disparou 8,21% para R$ 5,40, enquanto os contratos de DI acumularam altas expressivas.
Apesar do choque inicial, Sgavioli descarta a visão de um período perdido para quem aplica recursos. Não acho que vai ser mais difícil, eu acho que vai ser diferente, avalia, em entrevista ao InfoMoney. Dá para ganhar dinheiro. Dá para ganhar bastante dinheiro até, eu diria. Só que você ganha diferente.
Como posicionar a renda fixa
Diante do novo cenário, a recomendação prioriza carteiras sustentadas pelo carrego e não pelo ganho de capital, exigindo prazos menores na renda fixa e maior agilidade tática. O especialista destaca que a precificação atual reflete uma continuidade da gestão econômica acompanhada por uma leve deterioração fiscal, impulsionada por pacotes recentes que podem adicionar bilhões em despesas nos próximos anos.
No segmento de prefixados, a indicação para novas posições sugere cautela e prazos mais curtos. O cenário de ajuste fiscal não está abandonado. Ele só é menos provável, argumenta. Para quem já adquiriu papéis pagando entre 13% e 14% durante o período eleitoral, a taxa ainda se mostra atrativa para o carrego, embora a marcação a mercado tenha saído do radar.
Proteção com IPCA+ e o futuro da Bolsa
Os títulos vinculados à inflação ganham espaço como ferramenta de proteção contra riscos fiscais ampliados. Segundo o executivo, a alocação em Tesouro IPCA+ serve como defesa para momentos em que a política monetária perde força para o desequilíbrio das contas públicas. Ele compara o prefixado a um atacante cauteloso e a NTN-B a um atleta de meio-campo para trás.
No mercado acionário, a recomendação é buscar empresas com menor sensibilidade às oscilações do Ibovespa, priorizando setores como utilities, infraestrutura, financeiro e commodities ligadas ao petróleo e ao agronegócio. O profissional também alerta sobre o perigo de evitar riscos desnecessariamente, reforçando a importância de manter a disciplina na alocação de longo prazo.
Por fim, o horizonte de planejamento tornou-se mais restrito. Caso o cenário de continuidade se consolide, a montagem de portfólios exigirá foco absoluto em estratégias de carrego, redução de prazos e táticas de curto prazo, abandonando temporariamente o modelo tradicional de compra e manutenção prolongada.







