As tradicionais campanhas de conscientização costumam concentrar seus esforços na prevenção, no diagnóstico precoce e nos protocolos médicos contra o tumor mais incidente no país, que deve atingir 78.610 novos casos anuais entre 2026 e 2028, segundo projeções oficiais. No entanto, existe uma fase negligenciada pelo debate público: o período posterior à alta médica, quando o medo da reincidência passa a assombrar a rotina das pacientes.
O peso psicológico da remissão Enquanto o ciclo terapêutico envolve uma convivência intensa com hospitais e equipes médicas, a conclusão dos procedimentos gera um vácuo brusco na vida da mulher.
“Enquanto familiares e amigos celebram a remissão e esperam que a vida volte ao normal, a mulher pode continuar convivendo com medos, inseguranças e transformações que não desaparecem com o fim do tratamento”, escreve, em artigo, a psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira.
A especialista aponta que a diminuição repentina no contato com profissionais de saúde inaugura um cenário repleto de dúvidas.
“Consultas e pessoas sempre por perto, acompanhando sua saúde. Quando a quimioterapia e a radioterapia terminam, esse contato diminui e começa nova etapa. Uma etapa cheia de incertezas, de medo de a doença voltar e de transformação na própria vida”, afirma Laís à Agência Brasil.
Transformações físicas e a angústia constante Além do fator psicológico, as sequelas físicas e os tratamentos de manutenção — que podem se estender por até cinco anos — alteram profundamente a autoimagem e a dinâmica relacional das pacientes.
“O corpo dessa mulher mudou. Ela tem cicatriz, às vezes perdeu uma mama, ganhou uma nova mama que ela ainda não se identifica. A sexualidade pode mudar, assim como a intimidade com o parceiro e a própria disposição diminui par atividades diárias e para a vida sexual”, afirma.
A médica mastologista e radiologista Renata Reis Pinto, vinculada ao Instituto Nacional de Câncer, destaca que a patologia carrega um histórico pesado de estigmas e ainda é enxergada com pavor pela sociedade. Para amenizar esse impacto, ela defende uma abordagem ampla desde o início.
“É importante oferecer para a paciente um tratamento multidisciplinar, com uma assistente social que pode ajudar em questões como onde vai ficar o filho enquanto ela está em tratamento, questões sociais relacionadas ao trabalho. A psico-oncologia é de fundamental importância para perceber até que ponto esse medo está sendo tão intenso que a paciente possa necessitar de alguma medicação”, afirma Renata à Agência Brasil.
O relato de quem viveu o processo A paciente Josiane Fernandes, diagnosticada no início de 2025, enfrentou a jornada terapêutica de cirurgia, quimioterapia e imunoterapia de forma isolada no início.
“Eu não contei para ninguém. Eu sofri sozinha. Só contei para meu marido depois de fazer a biópsia. Meu tratamento com cirurgia, quimioterapia e imunoterapia durou por volta de um ano e três meses. Entrei em depressão, precisei de tratamento”, conta.
Mesmo após a conclusão dessa etapa, o fantasma da doença continua presente em sua rotina de exames preventivos.
“O tratamento pode terminar, mas o medo nem sempre termina junto. Até hoje, numa consulta de rotina, num exame, eu entro em pânico. Parece que volta tudo o que eu vivi. As pessoas que passam por um câncer deveriam ter um cuidado no pós-tratamento. Existe vida depois do câncer, mas essa vida precisa ser reconstruída”, completa Josiane.







