O faturamento com produtos à base de cannabis para fins terapêuticos deve alcançar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão até o final de 2026 no Brasil. O montante consolidará uma trajetória de avanço sobre o desempenho de 2025, ano concluído com cerca de R$ 950 milhões movimentados. Apesar da expansão contínua, o segmento ainda opera aquém de sua capacidade máxima em virtude de barreiras regulatórias, custos de tratamento e desafios de posicionamento clínico.
Projeções até 2030 e o mercado do sono
As estimativas para o encerramento desta década são ainda mais expressivas: a expectativa é que o faturamento atinja R$ 14 bilhões em 2030, sob a premissa de desonerações regulatórias e ampliação da manufatura em solo nacional. No entanto, o valor pode ser amplamente superado caso a substância deixe de ser encarada apenas como recurso extremo para quadros refratários e ingresse como tratamento de primeira escolha em áreas de grande escala, como a de distúrbios do sono.
De acordo com o CEO da blis, Toninho Corrêa, a evolução do setor depende dessa mudança de paradigma: “Se a cannabis medicinal se tornar um produto de primeira linha daqui a alguns anos para o sono, ela já será muito maior do que R$ 14 bilhões.”
Perfil do paciente e avanço no interior
Diferente da percepção comum de concentração nos grandes centros urbanos, cerca de 80% dos usuários de terapias canábicas no país residem fora das principais capitais. O alcance já engloba mais de 2.400 municípios espalhados pelos 27 estados da federação, impulsionado por plataformas digitais que conectam médicos e pacientes mesmo em localidades desprovidas de especialistas locais.
O perfil predominante abrange indivíduos entre 35 e 50 anos de idade, pertencentes a estratos econômicos com maior poder de compra. Atualmente, o custo médio do acompanhamento varia entre R$ 350 e R$ 400 por mês. Já a cesta de itens importados costuma exigir desembolsos próximos a R$ 1.000, com durabilidade superior a trinta dias. Ao mesmo tempo, iniciativas de distribuição pelo Sistema Único de Saúde (SUS) começam a atuar para ampliar o acesso a camadas mais amplas da população.
Divisão de mercado e desafios da importação
A composição do fornecimento no território brasileiro encontra-se dividida em três frentes principais:
- Importação direta: responde por 40% das operações, respaldada pelas normas da RDC 660 da Anvisa;
- Vendas em farmácias: concentram outros 40% da demanda, orientadas pelas regras da RDC 1.015, com opções industrializadas e manipuladas;
- Associações e vias judiciais: cobrem os 20% restantes por meio de habeas corpus e iniciativas de pacientes.
A tecnologia tem desempenhado um papel central para desatar os nós burocráticos dessa esteira, intermediando médicos prescritores, laboratórios, órgãos sanitários e aduanas para reduzir prazos e assegurar conformidade legal em cada etapa do processo.
Diferenciação entre uso terapêutico e recreativo
O executivo aponta que o Brasil possui vocação natural favorável para se transformar em um polo exportador de fitocanabinoides, integrando a produção interna à oferta de produtos importados. Para que esse potencial se concretize, contudo, avalia ser fundamental manter o debate estritamente focado nos benefícios à saúde.
Ao defender que a discussão terapêutica precisa caminhar de forma autônoma em relação a outras pautas sociais, Corrêa pontua: “Enquanto existir essa confusão entre o recreativo e o medicinal, a gente não vai destravar o uso medicinal.”








