A médica e professora Ludhmila Hajjar fez duras críticas à qualidade do ensino médico no Brasil durante a cerimônia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que estabelece a aprovação no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) como requisito obrigatório para o registro profissional. Conhecida popularmente como “OAB da Medicina”, a avaliação gerou debates sobre a preparação de novos profissionais para o mercado de trabalho.
Críticas à falta de experiência prática
Durante o evento realizado em 6 de novembro de 2026, a especialista destacou que muitos estudantes concluem a graduação sem vivência em situações críticas de atendimento de emergência. A situação coloca em risco a segurança dos pacientes, segundo a professora.
“Nos últimos 3 anos, eu vivo o período no qual eu mais me assusto com os médicos que eu treino. Eles vêm muitas vezes já formados, sem ter nunca atendido uma parada cardíaca, sem ter nunca visto um paciente em choque circulatório, sem ter nunca atendido um paciente que precisava de uma ventilação mecânica”, disse.
A médica também apontou falhas estruturais em instituições de ensino que não contam com hospitais adequados ou corpo docente qualificado para o ensino superior.
“Nós vivemos as consequências desse período de moratória e de inúmeras escolas que nem sequer têm um hospital, que nem sequer têm um professor com doutorado, com capacitação para escutar aquele aluno, para ensinar aquele aluno”, afirmou.
O estudante como vítima do sistema
Para Ludhmila, a culpa pelas falhas na formação não deve recair sobre os acadêmicos, que muitas vezes investem recursos financeiros significativos e acabam se tornando as principais vítimas de instituições ineficientes. Por isso, ela defende a aplicação de provas periódicas no 2º, 4º e 6º ano da graduação, permitindo o acompanhamento contínuo e a correção de rumos antes do término do curso.
“Nós não queremos só uma prova tipo OAB da medicina. O aluno não é culpado pela formação inadequada. O aluno muitas vezes é a principal vítima”, declarou.
A especialista acrescentou que uma única avaliação ao final do processo traz impactos limitados para a sociedade.
“Quando nós simplesmente fazemos uma prova na saída, isso vai gerar muito pouco benefício para a sociedade. Eu quero é corrigir a rota de formação do aluno e eu quero que, ao se formar, ele tenha as competências que a sociedade busca no médico”, afirmou.
Impacto nas instituições e regras do exame
A nova legislação prevê que a implementação do modelo resulte no fechamento de escolas médicas irregulares ou com desempenho insuficiente nos próximos anos, contando com a supervisão conjunta do Ministério da Educação, Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Medicina.
“Eu garanto que esses próximos anos de implementação serão anos ainda mais importantes, porque juntos nós iremos aperfeiçoar em tempo real e nós, daqui a 2, 3 anos, teremos fechado escolas médicas”, afirmou.
O Enamed contará com três etapas avaliativas ao longo da graduação: no 2º ano (diagnóstico inicial), no 4º ano (antes do internato) e no 6º ano (avaliação final de proficiência para o registro). A exigência é válida para estudantes que ingressaram a partir de 19 de junho de 2026.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reforçou que o processo servirá para punir instituições com desempenho insatisfatório por meio de redução de vagas ou suspensão de turmas. Ao finalizar sua participação, Ludhmila ressaltou a união de diferentes setores e a importância de um atendimento humanizado.
“Hoje a gente inaugura uma nova era na medicina, quando se unem o Legislativo, o Executivo, o Conselho Federal de Medicina e a sociedade brasileira”, declarou.
“Eu tenho certeza de que aquela mãe lá no interior, ao levar o seu filho, não vai sofrer uma iatrogenia, porque ali terá um médico capacitado e a escola que agiu como um negócio terá sido fechada, porque medicina não é negócio”, concluiu.








