Enquanto a Câmara dos Deputados debatia a abertura de um processo de impedimento nesta quinta-feira (5), o presidente paraguaio Santiago Peña renunciou ao cargo. A decisão ocorreu no auge de uma turbulência financeira desencadeada pela intervenção do Banco Central Paraguaio (BCP) em uma instituição digital de grande relevância no país.
O estopim da crise financeira
A tempestade política teve início na terça-feira (3) com a liquidação do Ueno Bank, instituição que acumulava 2,9 milhões de correntistas — o equivalente a cerca de 60% da população adulta do país. Com o congelamento dos depósitos, o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que havia atuado como dirigente do banco digital até 2023, entregou o cargo. Manifestantes tomaram as ruas para exigir punição aos responsáveis, resultando em um pedido de prisão contra oito pessoas pelo Ministério Público, incluindo o principal executivo da instituição financeira, Juan Manuel Gustale.
A pressão sobre Peña intensificou-se porque ele manteve ações no Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025. Opositores também apontaram uso político de recursos públicos, como investimentos estatais do Instituto de Seguridade Social (PIS) e fundos públicos estimados em US$ 850 milhões no banco liquidado.
Impacto político e a posição do partido
Abandonado pela própria legenda, o Partido Colorado, Peña justificou sua saída visando à estabilidade da nação.
“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, disse o presidente, em pronunciamento nas redes sociais.
“A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”, acrescentou.
Mesmo com a renúncia formalizada, os deputados aprovaram por unanimidade o processo de impeachment. Cabe agora ao Senado definir se o julgamento prossegue, algo crucial porque ex-presidentes têm direito a uma vaga de senador vitalício sem voto, benefício perdido em caso de cassação e consequente perda de foro privilegiado. O líder do Partido Colorado, Horácio Cartes, declarou que o grupo não apoiará desvios de fundos públicos ou privados.
Durante os debates, a deputada Johanna Ortega criticou duramente a gestão: “Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”.
Consequências econômicas e repercussão
O escândalo abala a imagem de polo atrativo de investimentos estrangeiros que o território paraguaio vinha consolidando. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai alertou para uma iminente paralisação parcial do comércio, visto que redes varejistas dependem fortemente de transações vinculadas ao banco liquidado.
Por sua vez, a agência de risco Moody’s alertou sobre a solidez da cobertura aos correntistas. Embora o BCP garanta que 97% dos correntistas possuem amparo, apenas 30% do volume total de recursos depositados encontrava-se dentro do teto do fundo garantidor local, estimado em US$ 38 mil por pessoa.
Ao se despedir do cargo, o ex-mandatário fez um último pedido público: “Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai”.








