Em 2015, o naufrágio do barco de pesca do marido de Angela Reis eliminou a principal fonte de renda de sua família no Pará. Ela reuniu as três filhas, Adriane, Jéssica e Jeovana Correa, e voltou a um conhecimento que já tinha: o macramê. Sementes de jarina, açaí e paxiúba passaram a compor acessórios da Eco Arte Biojoias. Anos depois, o pai retornou à pesca, e suas escamas de pescada-amarela começaram a chegar ao ateliê das mulheres. Como a atividade que falhou naquele primeiro momento entrou novamente na história, agora como matéria-prima?
O que aconteceu depois do naufrágio?
A família perdeu o rendimento que dependia da embarcação. Angela e as filhas precisaram buscar outra maneira de trabalhar sem esperar que a pesca voltasse imediatamente a sustentar a casa. A experiência artesanal ofereceu um ponto de partida real, ainda que produzir peças não significasse ter compradores. O grupo decidiu combinar habilidades manuais com materiais disponíveis na região amazônica, começando uma atividade que exigiria aprendizagem comercial.
Angela ensinou técnicas de macramê às filhas. Nós e tramas permitiam montar colares, brincos e outros acessórios com sementes. A decisão não apagou o problema do barco: ela transformou uma habilidade compartilhada em possibilidade de renda. A produção de biojoias com materiais amazônicos exige também desenho, acabamento e canais de venda, não somente coleta de insumos.
Como as primeiras peças viraram um negócio?
O coletivo criou a Eco Arte Biojoias, nome que reunia a ideia de aproveitamento de materiais naturais e trabalho artesanal. Sementes de jarina, açaí e paxiúba entraram nas composições. A origem amazônica dos insumos ajudava a diferenciar as peças, mas não garantiu demanda imediata. Era preciso apresentar os produtos, ouvir compradores e manter a qualidade mesmo quando a produção ainda era pequena.
As primeiras feiras de economia criativa funcionaram como vitrine e teste. Nelas, a família podia descobrir o que as pessoas procuravam e quanto estavam dispostas a pagar, além de explicar como as peças eram feitas. A trajetória documentada da família mostra que a dificuldade para encontrar compradores foi uma etapa real, não um obstáculo apagado por uma história de sucesso instantâneo.
Por que a Praça da República foi importante?
Conseguir espaço na Feira de Artesanato da Praça da República, em Belém, colocou as peças diante de público mais amplo. Para quem dependia de eventos esporádicos, a oportunidade oferecia visibilidade e contato regular com compradores. A conquista não equivale a uma rede nacional de lojas nem informa faturamento; representa uma etapa verificável na construção de mercado para o trabalho das quatro mulheres.
A feira também permitiu que as peças fossem vistas no contexto da produção artesanal paraense. Mais tarde, a Eco Arte Biojoias participou da Feira de Artesanato do Círio e de atividades relacionadas à COP30, realizada em 2025. Esses eventos ampliaram a circulação da marca, mas cada participação exigia preparação de estoque, organização e apresentação. O negócio cresceu por etapas, conforme oportunidades concretas apareceram.
Como as escamas entraram na produção?
Segundo Jeovana, o pai voltou a trabalhar na pesca e passou a fornecer escamas de pescada-amarela. A família tratava o material antes de incorporá-lo às biojoias. O retorno dele ao mar mudou a relação entre as duas atividades: a pesca já não era apenas a fonte de renda perdida em 2015, mas também uma origem de matéria-prima para um empreendimento criado depois da crise.
As escamas não substituíram todas as sementes nem transformaram a empresa numa indústria de grande escala. Acrescentaram uma possibilidade criativa a técnicas que as artesãs haviam desenvolvido. O processo exige seleção e beneficiamento, pois uma peça precisa ser confortável, durável e adequada à venda. O material recuperado só ganha valor quando passa pelo trabalho de quem o prepara e decide como usá-lo.
O que a história ainda não permite afirmar?
O relato do Sebrae registra a origem da empresa, as feiras e o uso das escamas, sem divulgar o faturamento da família ou afirmar que todas abandonaram outras atividades. Também não apresenta o naufrágio como um evento que automaticamente gerou lucro. Entre a perda do barco e a presença nas feiras houve anos de produção, contato com compradores e adaptação das peças.
A trajetória envolve quatro mulheres com funções compartilhadas e um pai que retornou à pesca. Reduzi-la a um único momento de inspiração esconderia o trabalho necessário para construir o empreendimento. A família encontrou em uma atividade manual conhecida uma resposta inicial à falta de renda; depois precisou sustentar essa resposta com qualidade, oportunidades de exposição e novas ideias de materiais.
Que volta a pesca deu na vida da família?
O barco naufragado marcou a ruptura econômica de 2015. Anos depois, as escamas fornecidas pelo pai voltaram a ligar o mar à renda doméstica, mas de um jeito que ninguém havia planejado naquela crise. Angela e as filhas continuaram responsáveis por criar e comercializar os acessórios, enquanto a pesca passou a contribuir para algumas das peças. O mesmo território sustentava duas atividades conectadas.
A Eco Arte Biojoias nasceu de uma necessidade concreta, aprendeu a vender em feiras e encontrou espaço para experimentar novos materiais. O desfecho não é uma promessa de que toda perda vira oportunidade. É uma mudança documentada: uma família que ficou sem seu principal instrumento de trabalho produziu outra fonte de renda e, quando a pesca recomeçou, soube incorporá-la ao que havia construído.








