–:–:–
Conecte-se conosco

Malásia vira polo global de IA e abriga data centers dos EUA e da China

País asiático atrai bilhões em investimentos tecnológicos ao adotar postura neutra na disputa geopolítica entre Washington e Pequim.

43 visualizações
O país improvável que virou um polo da corrida global da IA

O sul da Malásia, em áreas que antes abrigavam plantações de óleo de palma e abacaxi, testemunha a rápida expansão das ambições tecnológicas globais da China. Guindastes e canteiros de obras se multiplicam em dezenas de hectares onde empresas constroem enormes complexos para atender companhias de tecnologia.

A estratégia da neutralidade

Nesses novos centros de dados, operam alguns dos chips de inteligência artificial mais avançados fabricados pela Nvidia. Embora essas peças tenham exportação proibida para o território chinês pelas regras dos Estados Unidos, as restrições geralmente não impedem que empresas como a ByteDance acessem os mesmos semicondutores em instalações situadas fora da China.

Essa distinção impulsionou o país de 35 milhões de habitantes no boom tecnológico global. Motivadas por terrenos baratos, eletricidade acessível e conexão com cabos submarinos, corporações estrangeiras despejam bilhões de dólares na região. O estado de Johor tornou-se o epicentro desse movimento, acumulando dezenas de projetos aprovados ou em construção.

“É algo impressionante e difícil até de imaginar”, afirmou Steven Tan, CEO da Pro3c, empresa taiwanesa que fabrica componentes ópticos usados nos chips da Nvidia. “Todo mundo está vindo para cá.”

Gigantes dos Estados Unidos, a exemplo de Microsoft, Google e Oracle, investem pesado no território malaio para atender clientes asiáticos. Simultaneamente, o local virou um centro de processamento para marcas chinesas como Tencent e Alibaba, posicionando infraestruturas rivais praticamente lado a lado.

“Este é o único lugar do mundo onde estamos vendo isso acontecer”, afirmou Lee Ting Han, integrante do governo de Johor envolvido na aprovação dos projetos. “O que torna a Malásia tão especial para essa onda da IA é justamente sua posição neutra e não alinhada.”

O avanço chinês e as brechas regulatórias

O movimento começou em 2021, impulsionado por restrições energéticas em Singapura. A DayOne, ligada a uma das maiores operadoras de data centers chinesas, liderou a chegada de companhias daquele país à região, transformando até mesmo campos de golfe em complexos tecnológicos. A expansão coincidiu com o endurecimento dos controles comerciais americanos, mas a captação de recursos internacionais permitiu que a empresa mantivesse fortes laços com Pequim.

Autoridades dos Estados Unidos monitoram de perto o papel do Sudeste Asiático nessa dinâmica. Relatórios internos apontam que a capacidade computacional disponível para empresas chinesas em países da região rivaliza com a da China continental. Críticos apontam que as políticas americanas deixaram lacunas significativas.

“Nada disso é ilegal”, disse Jimmy Goodrich, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego e ex-executivo do setor de semicondutores. “É uma enorme lacuna nos controles de exportação que ninguém corrigiu. Essas brechas dão à China acesso a capacidade computacional gigantesca e espaço para alcançar os concorrentes na corrida pela IA.”

Desafios locais e regulação

O ritmo acelerado gerou alertas internos. O governo malaio passou a adotar exigências mais rígidas, dificultando novas aprovações ao cobrar fontes independentes de água e energia. Apesar disso, os empreendimentos já licenciados seguem transformando a economia e a paisagem local, alimentados pelas próprias rivalidades internacionais que marcam a tecnologia moderna.

“Só quando a situação fica complicada é que temos trabalho para fazer”, afirmou Eric Yong, corretor imobiliário e desenvolvedor do setor na região.

Mais em Mundo

Ver tudo →