O Brasil registrou uma queda de 43% na área total de vegetação nativa fragmentada por desmatamento e mudanças no uso do solo ao longo de um período de 38 anos, conforme apontam os novos dados do módulo de Degradação do MapBiomas divulgados recentemente.
Evolução e aumento de pedaços menores
Em 1986, o país contabilizava 287 hectares fragmentados, montante que caiu para 163 hectares em 2024. Esses locais representam porções de mata original que acabaram cercadas por pastagens, lavouras ou zonas urbanas.
Apesar da retração na extensão global, essas faixas de vegetação ficaram menores e se multiplicaram em quantidade. O número de recortes salta de 2,35 milhões em 1986 para 3,41 milhões no levantamento mais recente.
Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas, aponta os impactos negativos dessa dinâmica para a fauna e flora local.
“[Essa segmentação] reduz o fluxo gênico [transferência de material genético] e aumenta o risco de extinções locais.”
Impactos por bioma e regiões
A Mata Atlântica surge como a mais afetada em termos de quantidade, somando 1,38 milhão de áreas recortadas com uma média de apenas 25 hectares por trecho. Logo depois aparece o Cerrado, acumulando 957 mil pequenas porções de vegetação nativa, com média de 105 hectares.
O Pampa exibe uma média de 81 hectares por trecho, enquanto a Amazônia detém os maiores extratos em área em 2024, alcançando 662 hectares médios — embora esse número represente uma forte retração de 76% desde 1986, quando a média era de 2,7 mil hectares.
O volume de porções totalmente isoladas disparou 260% em 38 anos, saltando de 144 mil em 1986 para 519 mil em 2024. Quase metade desse total, ou seja, 49%, concentra-se nos estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná.
Conforme reforça Conciani, “Quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso é muito ruim em termos ambientais porque aumenta drasticamente a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos”.
Vulnerabilidade e áreas de borda
As chamadas áreas de borda — faixas de 30 a 150 metros próximas a regiões desmatadas — sofrem graves processos de degradação devido ao excesso de luz, ventos fortes e perda de umidade do solo. Atualmente, entre 37 milhões e 102 milhões de hectares de vegetação nativa brasileira encontram-se nessa condição vulnerável.
O Cerrado lidera em extensão de matas expostas, com valores entre 11 milhões e 32 milhões de hectares. Proporcionalmente, contudo, a Mata Atlântica lidera o ranking de fragilidade, tendo de 29% a 66% de sua vegetação remanescente situada diretamente nessas zonas de borda.
Apresentação internacional na COP17
As estatísticas atualizadas integraram a Coleção 11 de mapas de cobertura e uso da terra do Brasil. O material completo foi apresentado durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), realizada em Yerevan, na Armênia.
Eduardo Vélez, pesquisador da GeoKarten e integrante do grupo de Degradação do MapBiomas, enfatiza que monitorar essas mudanças é indispensável para conter a crise mundial da biodiversidade.
“As informações inéditas disponibilizadas e atualizadas sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil são estratégicas para entender a dimensão do problema, evitar seu agravamento e inclusive orientar ações de restauração na busca de maior conectividade ecológica.”








