Mais de dois meses após ser baleada no rosto pelo ex-companheiro dentro de seu próprio estabelecimento comercial no bairro Santa Quitéria, em Curitiba, uma cabeleireira de 31 anos continua o seu processo de reabilitação. Familiares informam que a sobrevivente lida com sequelas na fala e episódios de instabilidade emocional, enquanto a equipe médica ainda não assegura uma recuperação completa.
O crime e o socorro imediato O episódio violento ocorreu na tarde do dia 25 de agosto, na Rua Curupaitis. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que o agressor, de 45 anos, invadiu o local, empurrou a vítima e efetuou os disparos. Mesmo ferida gravemente, ela conseguiu caminhar para a parte externa a fim de buscar socorro, desabando na calçada metros adiante. Logo após o ato, o homem tentou tirar a própria vida.
Ambos foram hospitalizados em estado crítico. A mulher recebeu atendimento no Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, onde permaneceu em coma antes de ser transferida para uma unidade especializada em reabilitação. O agressor está custodiado no Complexo Médico Penal.
Histórico de violência e denúncias do Ministério Público Consta nos registros que a vítima possuía medidas protetivas contra o ex-marido. O advogado Eduardo Perini, representante legal da família, apontou que mais de 15 boletins de ocorrência já haviam sido formalizados anteriormente.
Em 3 de setembro, o Ministério Público do Paraná (MPPR) apresentou denúncia formal contra o indivíduo por tentativa de feminicídio e perseguição majorada, conhecida como stalking, exigindo também o pagamento de indenização de pelo menos R$ 50 mil por danos morais.
O drama familiar e os traumas diários Em depoimento, a mãe da vítima relatou que a filha sofre com crises de choro e demonstra pavor de ruídos intensos, a exemplo de fogos de artifício.
“Tem horas que ela entra em crise, chora muito e fica se questionando por que está assim. A gente demora para acalmar”
A genitora destacou que a sobrevivência da filha é vista como um verdadeiro milagre.
“O fato de ela ter conseguido sair e pedir ajuda já era Deus, porque pela lógica era para ter caído”
Durante o período de internação, a expectativa médica inicial era desfavorável. Os filhos só tomaram ciência dos fatos após a transferência da mãe para a clínica de reabilitação.
“A gente que é mãe não cria um filho para isso. Eu criei essa menina como minha princesa”
Cobrança por justiça e temor pelo futuro Além de se dedicar aos cuidados com a filha, a mãe exige rigor na punição do agressor e deseja que o episódio sirva de alerta. O principal receio da família diz respeito à possibilidade de liberdade do suspeito.
“Eu preciso que seja feita a justiça, não só pela minha filha, mas para ver se isso para. Os pais não criam os filhos para passar por esse sofrimento (…) A gente está bem no momento e ele está preso, mas o meu medo é quando esse homem sair da cadeia. Se um dia ele sair, como vai ser a nossa vida?”
Ao final do desabafo, ela pediu solidariedade e deixou um aviso:
“Que essas meninas prestem muita atenção no relacionamento, porque eles dão sinais dessa monstruosidade”
Expectativa da defesa para o Tribunal do Júri O advogado Eduardo Perini enfatiza que a expectativa é de que o réu seja submetido ao Tribunal do Júri. Atualmente, o processo aguarda a fase de instrução para a oitiva de testemunhas, etapa que antecede a decisão do juiz sobre o envio do caso ao plenário.
“Que a sociedade curitibana dê uma resposta tanto para esse agressor como para os outros, que Curitiba não vai aceitar feminicidas”
A defesa reforça ainda que a manutenção da prisão é indispensável devido ao risco que o indivíduo representa, ressaltando que o trauma causou impactos profundos em toda a rede de apoio da vítima, incluindo filhos e parentes.







