Em meio à lida na zona rural de Marialva, no norte paranaense, uma cena incomum uniu afeto e arte: o agricultor João Zocatelli, de 64 anos, aceitou se transformar em drag queen para estrelar o ensaio fotográfico idealizado por seu filho, o fotógrafo Danilo Zocatelli, de 37 anos. A experiência, que desafiou estereótipos do campo, gerou acolhimento e reconhecimento na comunidade.
“Eu me senti realizado pelo teu sonho, né? […] Todo mundo que me encontra fala alguma coisa. A cada pouco vem um elogio, um abraço de uma pessoa. E isso aí foi muito forte para mim. Eu ter aceitado e ter essa repercussão”, relata João.
Troca de papéis e reconexão entre pai e filho
A iniciativa compõe o projeto Querido Pai, desenvolvido durante o mestrado de Danilo no conceituado Royal College of Art, em Londres, na Inglaterra. Morando no exterior, o profissional notava um distanciamento ao retornar à sua terra natal, como se precisasse adotar uma postura diferente da sua essência.
“Eu sempre tinha essa necessidade de estar, de certa forma, performando uma certa masculinidade devido ao ambiente em que cresci. E eu via que, todas as vezes que eu voltava para o Brasil, eu ia me desmontando. Eu tinha uma vida lá [na Inglaterra], uma forma de me expressar e tinha uma curiosidade, e aí, quando eu vinha para o Brasil, eu tinha uma outra”, relatou.
Para construir uma ponte de diálogo, o fotógrafo convidou o pai para participar da série de retratos. A resposta positiva veio rapidamente, com apenas uma exigência bem-humorada. “Ele me disse: ‘Só vou fazer se você comprar uma peruca bonita para mim e para sua mãe. Mas tem que ser com uma peruca bonita’”, conta o filho.
O propósito principal era promover a empatia mútua. Em uma carta dedicada ao pai, Danilo pontuou: “Eu só quero, por um dia, poder te mostrar como eu pertenço no mundo, como eu me sinto. Eu quero te olhar e me ver refletido em você, sem ter medo de ser assim como sou — gay, cabelo comprido, brincos, piercing e unhas pintadas”.
Bastidores da produção no campo
Apesar do espanto diante do espelho após a caracterização, o produtor rural encarou o processo com naturalidade e dedicação. “Tudo que foi da minha parte, eu fiz. Sem reclamar, tudo de boa”, diz João. Ele inclusive compartilhou o resultado com conhecidos. “O amigo é alemão. Ele só disse que, se eu precisasse de uma drag loira, era só chamar”, contou Danilo.
Durante cinco dias, a rotina de Marialva foi palco para as fotos, que integraram perucas volumosas, maquiagens carregadas e roupas chamativas a cenários rurais como plantações, galpões e tratores. O trabalho também serviu para que o artista enxergasse a própria admiração pela sabedoria agrícola do pai.
“O meu pai é uma pessoa muito, muito sábia. Ele tem uma capacidade de pegar milhões de sementes, colocá-las no solo, fazer com que elas cresçam, floresçam, nasçam, mas tem muitas coisas que são limitações para ele, assim como para mim. Eu não sei fazer o que ele faz. Então, ver esse homem do campo, vestido de drag, em cima de um trator, com a barriguinha aparecendo, segurando um pano pink voando, é uma imagem que eu nunca imaginaria ver”, diz Danilo.
Circulação internacional da obra
As reações dos moradores locais ao longo das gravações foram marcadas por curiosidade e descontração. O ensaio fotográfico ultrapassou as fronteiras do Paraná e já percorreu mostras de arte na Inglaterra, França e Bélgica. Em território nacional, o projeto será apresentado ao público a partir de 5 de dezembro em uma exposição na Justiça Federal do Rio de Janeiro.







