A dependência das gigantes da tecnologia no IPO
O prospecto para a oferta pública inicial (IPO) da Anthropic revelou o nível de dependência da desenvolvedora de inteligência artificial em relação a um grupo restrito de parceiros e gigantes do setor. O documento indica que Amazon e Google exercem funções essenciais na distribuição dos softwares, na provisão de infraestrutura computacional e na gestão financeira de cobrança, ao mesmo tempo em que atuam como investidores e concorrentes diretos no mercado global de IA.
Conforme dados obtidos por meio de uma cópia confidencial do pedido de IPO, 47% do faturamento da empresa com clientes em 2025 foi intermediado pelos marketplaces de computação em nuvem mantidos pela Amazon e pelo Google. Além disso, as corporações injetaram dezenas de bilhões de dólares na companhia, que firmou contratos de longo prazo para garantir capacidade computacional. Com planos de investir centenas de bilhões para impulsionar o crescimento, a Anthropic estipula uma avaliação de mercado próxima a US$ 2 trilhões (R$ 10,4 trilhões).
Crescimento acelerado e disparada de prejuízos
O relatório financeiro evidencia uma expansão expressiva nos negócios da startup, acompanhada por um salto proporcional nos custos operacionais. Em 2025, a receita multiplicou por 12 e alcançou quase US$ 4,6 bilhões (R$ 23,9 bilhões). Contudo, o prejuízo operacional mais do que duplicou no mesmo período, superando a marca de US$ 8 bilhões (R$ 41,6 bilhões).
Geograficamente, os Estados Unidos concentraram quase dois terços das vendas totais da organização. A maior parte do faturamento — cerca de US$ 3,8 bilhões (R$ 19,7 bilhões) — proveio do consumo do sistema Claude, principal inteligência artificial da casa, enquanto as assinaturas tradicionais somaram US$ 789 milhões (R$ 4,1 bilhões). A expectativa da gestão é de que o modelo baseado no uso mantenha-se como a principal fonte de ganhos no curto prazo.
Taxas de distribuição e acordos bilionários de infraestrutura
As vendas efetuadas por meio das plataformas de nuvem das parceiras somaram cerca de US$ 2,16 bilhões (R$ 11,2 bilhões) em 2025. O levantamento aponta que a Anthropic desembolsou aproximadamente US$ 351 milhões (R$ 1,8 bilhão) em taxas de canal, o equivalente a US$ 0,16 por cada dólar comercializado. Essa quantia é classificada contabilmente como despesa de vendas, marketing e parcerias.
A escalada dessa dependência ocorreu rapidamente: em 2023, o canal representava 11% da receita, subindo para 32% em 2024 e quase 50% em 2025. Esse cenário gera um arranjo onde as mesmas companhias financiam, hospedam, vendem e disputam espaço com a desenvolvedora. O prospecto pontua que a concentração de parceiros cria dinâmicas complexas que podem gerar conflitos de interesse e afetar negativamente o acesso à infraestrutura.
Os compromissos de infraestrutura avançaram na mesma proporção. No encerramento de 2025, a companhia acumulava US$ 54,6 bilhões (R$ 284,2 bilhões) em obrigações de hospedagem, montante que saltou para mais de US$ 417 bilhões (R$ 2,1 trilhões) no início de 2026, englobando 3,5 gigawatts de capacidade dedicada, além de um contrato adicional fechado com a Microsoft.
Impactos na cobrança e divergências com a concorrente OpenAI
O ecossistema das plataformas também impacta o fluxo de caixa, visto que Amazon e Google responderam pela cobrança de 60% das contas em aberto no final de 2025. Adicionalmente, a carteira de clientes apresenta alta concentração, com dois compradores anônimos respondendo por 12% da receita total de 2025, muitos sem contratos de longo prazo.
A estruturação dos negócios gerou atritos comerciais com a OpenAI. A metodologia contábil da Anthropic registra o valor bruto dos contratos fechados via marketplaces como receita própria e contabiliza as taxas pagas às plataformas como despesa de marketing. A rival argumenta junto a investidores que tal formato infla artificialmente o faturamento divulgado em bilhões de dólares, enquanto a Anthropic defende que segue normas contábeis vigentes por atuar como a principal entidade nas operações.








