A Polícia Federal, sob a direção de Andrei Rodrigues, elaborou um extenso relatório de 50 páginas que investiga a atuação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material, produzido durante as investigações que Mendonça supervisiona, foi encaminhado a Alexandre de Moraes e contém análises sobre decisões do ministro, especialmente nas operações Sem Desconto e Compliance Zero.
Análise das Decisões de Mendonça
O relatório examina com rigor o padrão probatório utilizado por Mendonça, o tempo que leva para decidir sobre medidas solicitadas pela PF e sua interação com outros membros do STF e figuras políticas. Além disso, o documento propõe possíveis motivações por trás de algumas de suas condutas, sem, no entanto, afirmar categoricamente que tais hipóteses são verdadeiras.
Contexto das Investigações
O conteúdo do relatório foi elaborado antes da decisão de Mendonça em 1º de setembro de 2026, quando ele retirou o sigilo de documentos relacionados à investigação do Banco Master, revelando uma conexão entre o fundador do banco e Moraes. Após essa decisão, Moraes solicitou à PF que enviasse o relatório para seu gabinete dentro do inquérito 4.781, conhecido por abordar questões de desinformação.
Indícios de Irregularidades
Em uma sessão do dia 3 de setembro, Moraes utilizou informações contidas nos relatórios para fundamentar alegações de “fortes indícios” de improbidade administrativa e abuso de autoridade por parte de Mendonça, particularmente nas operações mencionadas. O presidente do STF, Edson Fachin, foi instado a tomar ações, estabelecendo um prazo de cinco dias úteis para que os envolvidos apresentassem esclarecimentos.
Limitações dos Relatórios
É importante destacar que os relatórios da PF reconhecem suas próprias limitações. Eles foram elaborados como documentos de inteligência, destinados a fornecer suporte a decisões em um ambiente de informação incompleta, e não possuem valor probatório nem são peças de instrução processual.
Perspectivas Políticas
Uma análise significativa refere-se ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que é descrito como um “provável alvo estratégico” devido à sua influência política. O relatório sugere que Mendonça poderia ver em Antonio Rueda, presidente do União Brasil, uma forma de acessar Alcolumbre, especialmente considerando os obstáculos que o senador impôs durante a indicação de Mendonça ao STF.
Relações com Outros Ministros
Os documentos também abordam a maneira como Mendonça reagiu a informações sobre os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O relatório sugere que, ao lidar com Moraes, Mendonça demonstrou interesse em iniciar uma investigação formal, enquanto sua abordagem em relação a Toffoli foi caracterizada por uma “contemporização”, apesar de evidências graves já apresentadas pela PF.
Análise dos Prazos de Apreciação
O relatório também compara o tempo que Mendonça levou para decidir sobre diferentes casos, revelando uma “assimetria nos prazos de apreciação”. Por exemplo, uma medida relacionada a Jaques Wagner foi decidida em apenas 9 dias, enquanto outra envolvendo Cláudio Castro levou 75 dias. A PF observa que a variabilidade nos prazos pode estar relacionada ao perfil dos investigados, embora reconheça que a amostra é pequena e não controlada.
Interferência na PF
Além disso, o relatório investiga a interferência de Mendonça na estrutura interna da Polícia Federal, mencionando atritos com a cúpula da corporação e sua crítica à proximidade de Andrei Rodrigues com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mendonça também teria expressado desconfiança em relação a Paulo Gonet, procurador-geral da República, devido à sua relação com o ministro Gilmar Mendes.
Comparação de Procedimentos
Os analistas buscaram identificar padrões nas decisões de Mendonça, comparando suas abordagens nas operações Sem Desconto e no caso do Banco Master. O relatório aponta uma “variação relevante” nos padrões exigidos para a continuidade das investigações, mas não chega a concluir sobre as razões dessas diferenças.
Inquérito das Fake News
O inquérito das fake news, aberto em 2019, continua a ser uma ferramenta controversa no STF. Gilmar Mendes, em declarações recentes, defendeu a necessidade de manter o inquérito aberto, afirmando que a Corte precisa se proteger de críticas e que o processo é fundamental para a integridade do sistema judiciário.
A análise da atuação de André Mendonça pela Polícia Federal gera um debate acirrado sobre a imparcialidade e a ética no exercício de suas funções, colocando em evidência a complexidade das relações entre os poderes no Brasil.








